A bem da Nação

XICUEMBO – XICUEMBO (2)

 


 


Recusando-se a admitir qualquer evolução política, Salazar incumbiu as Forças Armadas de manterem Moçambique como terra portuguesa e quando Marcello Caetano falou da evolução na continuidade, logo os «ultras» do regime o torpedearam e os progressistas o tomaram por fraco. Pior ainda: acabava a guerra do Vietname e tornou-se logo evidente que o próximo alvo dos abutres seria o Império Português.


 


Foi frenética a corrida contra o tempo que se disputou em Moçambique naqueles dez últimos anos anteriores à independência, uma corrida pelo desenvolvimento como nunca antes se vira: Universidade em Lourenço Marques, Centro de Formação Profissional dos Transportes e Comunicações em Inhambane e Escola de Regentes Agrícolas em Vila Pery a que se somaram obras públicas como estradas, pontes, aeródromos, todas numa perspectiva longitudinal unindo o território moçambicano quando até então preponderava a perspectiva horizontal de serviço ao interland, o Império Britânico. E, claro, as grandes barragens como a de Cabora Bassa na perspectiva energética e diversas outras com fins agrícolas e de abastecimento de água às populações.


 



 


Crescimento formidável, sem dúvida, feito numa perspectiva claramente integradora de todos os moçambicanos sem olhar a cores nem a credos, hostil a qualquer espécie de apartheid mas, naturalmente, à imagem e semelhança do que nós, europeus, considerávamos ser o verdadeiro desenvolvimento. No rodopio daquele modelo de desenvolvimento, nada foi feito contra as culturas locais mas compreende-se que os mais conservadores possam ter achado que a administração portuguesa não atribuía a essas culturas mais do que um valor folclórico. Mas seria injusto ir contra esse desenvolvimento pois, calem-se os maledicentes, foram hordas de moçambicanos de todas as cores e credos que dele beneficiaram. Tratava-se de um modelo que pretendia beneficiar todos e que, há que reconhecê-lo, deixou raízes: Moçambique é hoje um país claramente integrado no mundo ocidental, nada tem a temer de qualquer desarmonia no concerto internacional dos Estados modernos. E isso deve-se ao modelo de desenvolvimento que Portugal ali implantou, sobretudo no século XX.


 


E não houve erros? Sim, houve e os magaíças são disso testemunhas não tanto pela acção dos nossos mas sobretudo pelo silêncio perante a acção de empresas sul africanas de «recrutamento» de mão de obra nativa. E porquê esse silêncio? Porque na nossa perspectiva, só iam trabalhar nas minas da África do Sul os moçambicanos que queriam mesmo ser mineiros e porque, sendo individualmente pagos em dinheiro, contavam para uma estatística ao abrigo da qual a África do Sul pagava a Portugal uma certa quantidade de ouro por cada magaíça dactiloscopicamente controlado na fronteira portuguesa pelo Serviço que anos mais tarde passou a ser o SEF mas que então se integrava na PIDE. Não foi por acaso que o Banco de Portugal amealhou tantas barras de ouro e isso fazia a ira de todos os que invejavam tal acordo. Portanto, a imoralidade do processo não estava no método de pagamento mas sim no método de «recrutamento» que as empresas sul africanas aplicavam em Moçambique. Houve quem visse coisas que mais vale calar, que promovesse a imediata libertação desses «voluntários» e desse voz de prisão aos algozes que os conduziam.


 


Dava para imaginar cenas como as que levaram o P. António Silva, SJ a escrever não há muito tempo que uma das causas do grande fracasso jesuíta em Moçambique nos séculos anteriores teve a ver com os «métodos de acção» resultantes do «mau exemplo dos europeus, a fraca ou má opinião que alguns missionários tinham dos africanos (incapacidade para as coisas da religião), aliada a uma progressiva mediocridade da actividade missionária, desviando os esforços mais para campos temporais que espirituais»[1].


 


E se estas misérias missionárias se passaram muito antes de a moderna administração portuguesa ter iniciado a dita corrida contra o tempo, ninguém hesitou em no-las atirar à cara como se tivéssemos sido nós os culpados. E quem encabeçou essas críticas? Um, de grande relevo: o Papa Paulo VI, que nunca quis admitir que a Deus se pudesse chamar Xicuembo e que as almas dos que já partiram e por quem se reza na Missa possam ser invocadas por esse nome de Deus.


 


Agosto de 2014


 


 Henrique Salles da Fonseca






[1] - In «A Companhia de Jesus em Moçambique», P. Francisco Augusto da Cruz Correia, SJ, in BROTÉRIA, ed. Julho de 2014, pág. 57 e seg.



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