A bem da Nação

XICUEMBO – XICUEMBO (1)

 


 


Fará por agora meio século que me desafiaram para naquela noite, depois do jantar, ir à igreja de S. Francisco, em Évora – onde eu então frequentava o curso de Economia – para assistir à palestra de um Padre que andava a dizer coisas novas à juventude, a falar sobre o futuro. E o meu amigo falou-me com tanto entusiasmo, que eu lá fui...


 


Logo no adro, comecei por constatar que a igreja de S. Francisco, afinal, era pequena para a quantidade de gente que nela queria entrar. Parecia que toda a cidade lá estava. E eu, na cidade, nada saberia daquilo se o meu amigo não me tivesse avisado. Sim, há universos que nos passam ao lado e nós nem damos por eles. Por vezes, andamos mesmo muito distraídos.


 


D. Manuel Vieira Pinto.png


O orador era o Padre Manuel Vieira Pinto que à época era o responsável em Portugal pelo «Movimento por um mundo melhor» e que logo de início arrebatou a audiência com uma fala vigorosa mas enxuta, objectiva na ideia de que «todos somos iguais perante o Pai». E esta – e, no fundo, bastando esta - deveria ser a base de construção de um mundo melhor; laicamente, advogando o primado da Declaração Universal dos Direitos do Homem da ONU de 1948. E assim, em duas penadas, juntou crentes e não crentes na mesma causa.


 


E dali partiu para sonhos que hoje já não recordo… Mas lembro-me de que vi a concretização desses sonhos quando soube que o tal Padre tinha sido nomeado Bispo de Nampula pelo Papa Paulo VI. Foi então que pensei que o mundo não estava assim tão perdido como nos diziam nos jornais e TV da época e que a sua salvação estava nas mãos de cada um de nós: se nos empenhássemos na melhoria do mundo, não seria necessário orgulharmo-nos da solidão[1]; mas também havia que merecer os mortos para que não tivéssemos que os chorar[2].


 


Fazendo logo ali por melhorar o mundo, ajudei a difundir a ideia da constituição de uma cooperativa que congregasse os criadores de porcos nas cercanias de Évora e muito mais não fiz sob pena de o meu curso poder sofrer algum percalço. Concluído o curso com a desejada lisura, regressei a Lisboa e preparei-me para ir para a tropa.   


 


Encurtando razões, eis-me mobilizado para Moçambique em rendição individual como Oficial Miliciano de Contabilidade e Pagadoria do Serviço de Administração Militar. Encurtando ainda mais razões, fui a Nampula (capital militar de Moçambique) receber colocação e lá fui eu destinado a Lourenço Marques (capital política e administrativa). Sempre encurtando razões, regressei passados dois ou três meses a Nampula onde fiquei durante mais 13 meses regressando depois a Lourenço Marques para acabar a comissão de serviço militar e regressar à Metrópole para passar à disponibilidade. Civil de novo, meti-me no avião de regresso a Lourenço Marques onde me aguardava trabalho e… «cherchez la femme».


 


Como se imagina, tive muitas oportunidades para conhecer moçambicanos pretos, brancos, mistos, indianos e chineses. A ordem por que os cito tem a ver com a expressão demográfica no conjunto de Moçambique à época.


 


E se os pretos se dividem por várias nações (a que muitos ainda hoje chamam tribos) com línguas tão diferentes que os levam a usar o português para se poderem entender, os brancos dividiam-se fundamentalmente em dois grupos: o dos estabelecidos - que em Lourenço Marques se reviam em associações como a dos «Velhos Colonos», dos «Antigos Estudantes de Coimbra», no «Grémio» e por aí fora noutras instituições equiparáveis um pouco por todo o território moçambicano; o grupo dos «comissários de serviço» que verdadeiramente consistia num não-grupo pois raramente havia qualquer base unificadora que lhes desse homogeneidade – os militares contando os dias que faltavam para que a comissão acabasse. Relativamente aos indianos, com importantes ligações ao culto muçulmano ismaelita (Aga Kahn), ligavam-se sobretudo ao comércio e, numa fase mais refinada, às finanças. Os chineses eram poucos e comigo serviu um Furriel Miliciano que, nascido em Moçambique e com a nacionalidade portuguesa, falava com dificuldade a nossa língua. Claramente, os chineses estavam noutra.


 


E foi de propósito que deixei os mistos para o fim pois foi um deles que me falou de Xicuembo. Já lá vamos…


 


Agosto de 2014


 


 


Henrique Salles da Fonseca






[1] - «Orgulhosamente sós» - expressão de Salazar




[2] - «Havemos de chorar os mortos se os vivos os não merecerem» - frase de Salazar



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