Sim, é em francês que me vem à memória este filme de Miloš Forman que em Lisboa estreou no S. Jorge em 1975 com o título "Voando sobre um ninho de cucos". Porquê em francês? Não me lembro da razão e nem sequer faz muito sentido porque no original se chamava "One Flew Over the Cuckoo's Nest". Trata-se da adaptação de um romance de Ken Kesey no qual um malandro, ao sair da cadeia, se finge louco para ser admitido num hospital psiquiátrico onde passa a influenciar os doentes verdadeiros. Há, contudo, uma enfermeira que o descobre, lhe faz oposição e por aí adiante até … o filme ganhar vários Óscares. O actor principal era Jack Nicholson que se diz ter desaparecido dois meses antes do início das filmagens apenas sendo reencontrado quando o restante elenco chegou ao manicómio onde o filme seria rodado. Diz-se que se internara para melhor desempenhar o papel. Vários figurantes eram mesmo doentes mentais. A história é, pois, relativa a um ambiente algo instável em que aparece um intruso que ali vai perturbar tudo e todos. História um bocado amalucada que nos leva a concluir que … cada macaco no seu galho.
E porque cada vez que utilizo um avião a hélice – voo relativamente lento e a uma altitude moderada – me sinto um intruso sobre as vidas daqueles que sobrevoo, foi o que há dias sucedeu quando fui a Bragança participar no VI Colóquio da Lusofonia organizado pelo Dr. Chrys Chrystello, personalidade bem nossa conhecida das páginas do "A bem da Nação", viagem durante a qual não me saiu da ideia o Vol sur un nid d'oiseaux.
E o que vi?
Vi muito mais do que esperava e passo a contar.
Fiz a minha estreia do Terminal 2 da Portela e se em Lisboa o céu estava encoberto, as nuvens desapareceram quase por completo de Mafra para diante e Portugal desfilou por baixo de nós:
§ Vi as terras preparadas para as sementeiras de Outono-Inverno, claramente mais do que alguma vez imaginara possível face à inexistência de mercados agrícolas transparentes; concluo que os agricultores portugueses são persistentes e adivinho que o crédito agrícola de campanha está a funcionar; faço votos para que as produções cubram o serviço da dívida e que mais alguma coisa venha a sobrar;
§ Não vi vestígios de fogos florestais mas o meu contentamento não se deixou embalar pela eficácia das políticas anti-fogo; lembrei-me de que tivemos um Verão chuvoso que apagou os instintos pirómanos dos criminosos ainda à solta e abonou relativamente bem as albufeiras das várias barragens que sobrevoámos; imaginei já construídas as mais dez barragens que o Governo acaba de anunciar para as bacias do Douro, do Mondego e do Tejo;
§ Vi estradas magníficas por tudo quanto é sítio, lembrei-me dos tempos em que uma viagem pelo interior de Portugal era um tormento e chorei menos pelos Impostos que paguei para esse efeito; deixemo-nos de SCUT's e outras demagogias;
§ Vi muitos geradores eólicos de electricidade e fiquei satisfeito com a preocupação de irmos reduzindo a dependência nacional do petróleo; lembrei-me de que a parte nobre desses geradores não é produzida em Portugal e pergunto-me porque é que o negócio há-de ser rentável na Dinamarca e não o é cá;
§ Vi que pequenas são cidades como Torres Vedras e Viseu e fiquei triste com a falta de condições de fixação das populações ao longo de tantos séculos da nossa História; lembrei-me de como são demorados os efeitos do Ensino Superior no desenvolvimento local e imaginei como poderíamos ser um país diferente se tivéssemos uma escolaridade média semelhante à da Suécia;
§ Vi em Bragança um aeródromo bem simpático com uma pista mais do que suficiente para o tipo de avião que faz as carreiras diárias e com os equipamentos aparentemente suficientes para a operacionalidade permanente; ao custo de € 10,00 em cada sentido, o táxi permitiu-me constatar que o volume de passageiros ainda não viabiliza uma carreira de transportes colectivos que faça a ligação à cidade.
Bem diferente esta minha viagem relativamente à que no Verão fiz pelo interior do Algarve em que só vi velhice e abandono.
Não reconheci Bragança pois já lá não ia há quase 30 anos. Sim, o Castelo estava lá no mesmo sítio mas … vou ter que lá voltar com mais calma tentando divagar em português e não mais noutra língua.
Lisboa, Outubro de 2007
Henrique Salles da Fonseca
