A bem da Nação

VIVER É PRECISO

 


 


Já Esopo tinha focado,


Na fábula que La Fontaine glosou


- De forma muito mais divertida


E movimentada -


A história do Morcego “vira-lata”


Que muito bem se desenrasca


Quando cai nas armadilhas da vida,


- No seu caso, da Doninha -


Mudando de condição


Conforme a ocasião.


Dele retiro apenas a moral


Que é tão real,


Tão actual,


Que não necessita de nenhuma explicitação


Formal:


«Esta fábula mostra, disse Esopo,


No século sexto ou sétimo antes de Cristo,


Que não devemos utilizar sempre os mesmos meios,


Mas pensarmos que se às circunstâncias nos adaptarmos,


Aos perigos muitas vezes escaparemos».


Eu só acrescentaria


Que não só podemos escapar aos perigos


Como podemos aceder a honras, a riquezas, a esplendores


E a outros valores,


Se soubermos adaptar-nos às circunstâncias,


Mudando de condição


Conforme a ocasião.


Aliás, a questão do mimetismo


Já foi tratado por outros autores,


Entre os quais o nosso Vieira


Que no seu Polvo traçou


Impiedoso retrato potente e sombrio


Que não se equipara nem de longe nem de perto


À leveza


De um Morcego de pouca destreza


Mas muito esperto.


 


De La Fontaine vejamos


«O Morcego e as duas doninhas »


«Um morcego, que ia a voar, de cabeça baixada,


Contra a toca duma doninha embateu;


Logo que ali chegou , desastrado,


A outra, para o devorar, acorreu,


Há muito contra os ratos


Formalizada.


“O quê? Você ousa diante dos meus olhos aparecer


Quando a sua raça nunca parou de me molestar?


Você não é um rato? Confesse, sinceramente.


Sim, é, ou não serei eu Doninha.”


”Perdoe-me, disse o pobre,  com muita manha,


Não é esse o meu natural!


Rato, eu? Isso são balelas


De quem me deseja mal!


Graças ao Autor do Universo,


Eu sou um Pássaro, veja as minhas asas!


Vivam as gentes que os ares fendem,


Com as suas asas, como eu!”


A razão bastou, que boa pareceu.


De tal maneira, que a liberdade lhe foi dada


Para se ir embora, sem mais zaragata.


Dois dias depois o nosso desastrado,


Foi cair cegamente


Na toca de outra Doninha,


Dos pássaros inimiga.


Ei-lo, novamente, em perigo de vida.


A Dona da casa, com o seu longo focinho,


Ia engoli-lo julgando-o ave,


Quando aquele protestou contra o ultraje:


“Eu? Passar por isto? Você não está a ver!


O que distingue o pássaro? É a plumagem.


Eu sou um Rato! Vivam os Ratos!


Zeus confunda os Gatos!


Com esta hábil saída,


O Morcego salvou por duas vezes a vida.


 


Muitos se acharam


Que de echarpe mudaram


Perante os perigos, e assim se safaram,


Tal como o Morcego cego.


O sábio diz, segundo a circunstância da vida:


Viva o Rei! Viva a Liga!»


 


 Berta Brás

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