A bem da Nação

VISÕES

 


Leio um texto de Opinião na Visão de 13/19 de Outubro (2011), uma Crónica de José Luís Peixoto, cuja fotografia indica alguém relativamente jovem. De bons sentimentos, o que me dá esperança em nós. De elegância de pensamento, o que me causa prazer, coisa que a prosa de Lobo Antunes, rebuscadamente piegas, como a que leio em “Amorzade” no mesmo sítio, na mesma revista de 21/27 de Julho, não conseguiu fazer. Lobo Antunes vê-se que estrebucha de gozo íntimo, ao penetrar-se de referências vaidosas ou de circunstâncias vividas com chiste, de quem tudo põe superiormente em causa, em que a timidez é só aparente, tal como a que demonstra nas entrevistas, massajando o lóbulo da sua orelha, o dorso contorcido de recusa a dar-se, mais hábil a construir-se pelas vozes ou gestos da gente grada com que se realça na crónica.


 


Chama-se “Os professores” a crónica de José Luís Peixoto, cujo primeiro parágrafo não resisto a transcrever na íntegra, tão amplo de conteúdo humano e de elegância expressiva, apesar da aparente linearidade frásica, sem torções inchadas de patusco egocentrismo, mas fortalecida por um pensamento honesto e lúcido, que se não põe de parte no enquadramento das vaidades humanas que vão crescendo com a idade, ou, pelo contrário, diminuindo, na abertura para a racionalidade e a informação:


 


O mundo não nasceu connosco. Essa ligeira ilusão é mais um sinal da imperfeição que nos cobre os sentidos. Chegámos num dia que não recordamos, mas que celebramos anualmente; depois, pouco a pouco, a neblina foi-se desfazendo nos objectos até que, por fim, conseguimos reconhecer-nos ao espelho. Nessa idade, não sabíamos o suficiente para percebermos que não sabíamos nada. Foi então que chegaram os professores. Traziam todo o conhecimento do mundo que nos antecedeu. Lançaram-se na tarefa de nos actualizar com o presente da nossa espécie e da nossa civilização. Essa tarefa, sabemo-lo hoje, é infinita.


 


E o texto segue, em frases lapidares de precisão e delicadeza:


 


… Os professores não vendem o material que trabalham, oferecem-no. Nós, com o tempo, com os anos, com a distância entre nós e nós, somos levados a acreditar que aquilo que os professores nos deram nos pertenceu desde sempre. … O trabalho dos professores é a generosidade.


 


Basta um esforço mínimo de memória, basta um plim pequenino de gratidão para nos apercebermos do quanto devemos aos professores. Devemos muito daquilo que somos, devemos-lhes muito de tudo. Há algo de definitivamente definitivo e eterno nessa missão, nesse verbo que é transmitido de geração em geração, ensinado.


 


…Um ataque contra os professores é sempre um ataque contra nós próprios, contra o nosso futuro. Resistindo, os professores, pela sua prática, são os guardiães da esperança. ….


 


…Envergonhem-se aqueles que dizem ter perdido a esperança. Envergonhem-se aqueles que dizem que não vale a pena lutar……


 


Recusar a educação é recusar o desenvolvimento. ….


 


Um texto a guardar, na sua íntegra, proveniente de alguém educado num espírito de compreensão e generosidade, contrastando com uma natureza de mesquinhez, mediocridade e rancor, que tanto aflige uma população impreparada, que o Governo anterior açulou poderosamente contra a dita classe.


U


m texto honesto que nos dá esperança ainda, apesar dos literatos de falsa modéstia, e de banal egocentrismo, apesar dos Antónios Barretos que se pretendem sociólogos e visionários pessimistas sobre a continuidade de uma Nação que tão clamorosamente um desses Barretos ajudou a destruir.


 


Enjoados destes, voltemo-nos, com fé, sobre os jovens construtivos, como José Luís Peixoto, obreiros da Nação futura.


 


17 de Outubro de 2011


 


 Berta Brás

0