A bem da Nação

UMA FÁBULA DE FLORIAN

 


 


Esta fábula de como se pode ser feliz


Vem a propósito


De um livro sobre «Os Portugueses»


De um escritor inglês


Chamado Barry Hatton


Que de um modo geral


Considera os portugueses


Contraditórios -


Na sua simpatia


Na sua imprevidência


Por excelência -


Que o remete para a cauda


Do povo europeu


Seja da União


Ou mesmo não,


Sempre troçado


Sempre ignorado,


Vilipendiado,


Apesar de ser capaz,


Apesar de bom rapaz.


Talvez que o nosso futuro,


Como o do grilo,


Seja o de viver obscuro


Mesmo sendo inconformado,


Como a fábula diz:


 



 


Um grilinho pobrezinho


Escondidinho


Na erva florida


Olhava uma borboletinha


Atrevidinha


No prado a volitar.


Via o insecto alado brilhar


Com as mais vivas cores


Das suas asinhas multicores,


A resplandecer


De azul, púrpura e dourado,


Sobre o prado,


Jovem, belo, senhor de si,


A esvoaçar,


Pegando e largando, a curvetear,


As mais belas flores


Das mais frescas cores


E odores.


« Ah! dizia o grilo, como são diferentes


A sorte da borboleta e a minha !


Dama natura,


Como uma má fada,


Por ela tudo fez e por mim nada.


Não tenho talento, menos ainda figura,


Assim,


Ninguém tem medo de mim,


De todos sou ignorado


Coitado !


Mais me valera não ser,


Ou até morrer! »


Estava ele a carpir-se,


Chega um bando de petizes,


Muito felizes,


Atrás da borboleta a correr.


Chapéus, lenços, e bonés,


Tudo serve para a apanhar


Sem grandes rapapés


Mas também sem pontapés.


Em vão o belo insecto tenta escapar,


Em breve será presa deles.


Um pelas asas, outro pelo corpo,


Um terceiro pela cabeça


Sem pressa


E sem hesitar


A hão-de agarrar.


Nem tanto esforço era preciso


Para despedaçar


O pobre animal, afinal.


« Oh! oh! - disse o grilo espantado


Já não estou nada zangado;


Custa muito caro neste mundo brilhar.


Como o meu viver apagado vou estimar!


Escondidos vivamos


Para felizes vivermos.


 


 


Infelizmente,


Tal não é verdade.


Porque a nossa obscuridade


Não é sinónima


De felicidade


Mas de insipiência,


De ruindade,


De incompetência


De insolvência,


De um desrespeito


Tão sem jeito,


Pelos princípios


Pelos valores


De um real Direito,


De preguiça mental


Por sinal,


E atropelamento feroz


De vós


Porque primeiramente


Estamos nós.


Definitivamente.


 


 Berta Brás

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