A bem da Nação

UMA DE NÓS

 (*)


 


 


Era nas vésperas do Novo Orçamento de Estado,


Éramos quatro mulheres


Dos tempos da ditadura –


Embora uma delas ainda menina,


Por essa altura,


A discutir sobre o próximo Novo Orçamento


E a concluir que não há fome


Que não dê em fartura,


Querendo com isso salientar


As discrepâncias entre aqueles tempos de tristeza


Em que se vivia apertado


Por um vencimento limitado


E nunca alterado


Em sucessivos anos de vilipêndio


Na pobreza,


Na poupança,


Sem perspectiva de mudança,


Nunca se dando


Um Novo Orçamento de Estado


Mas o que tínhamos não endividado.


E menos ainda


No tempo dos nossos pais,


que trabalhavam com esforços reais,


Com as filhas a terem só dois ou três vestidinhos


Lavadinhos, passadinhos,


Com que iam e vinham da escola,


Embora houvesse sempre as excepções


Das maria-rapazes destemidas


Que brincavam e os sujavam


E davam mais trabalhos às mães


Que sem descanso os lavavam


Para as filhas andarem compostinhas,


Como as outras sempre lavadinhas


Ou com mais roupinhas.


Tal como os livros que então se usavam


Que percorriam as várias gerações


Desde os da primeira classe aos do sétimo ano dos liceus


Fossem de história, de português ou de filosofia,


Que abarcavam muita sabedoria


Sem precisarem de apoiar cada noção


Com as imagens da facilitação


Para melhor compreensão,


E desta maneira se poupava


E se aprendia como competia


A quem queria


Estudar como devia,


Que o estudo sempre deveria


Estar em primeiro lugar


Na vida de cada ser.


Mas voltando à vaca fria,


Nós, as quatro mulheres,


Como representantes dos muitos,


Que têm sucessivamente sido despojados


Nos seus vencimentos, de que dantes


Tinham sido sucessivamente aumentados,


- No tempo das vacas gordas


Em que a Europa se prontificara


A pôr-nos erguida a cara


Com o dinheiro que sobre nós despejou


E nos tornou


Mais ricos e mais percorridos


Por estradas e outras vias


Do nosso bem-estar sucessivo,


Com os ordenados


Cada ano melhorados,


E outras traças e trapaças


De outros factos criticados,


- Até que se deu a hecatombe


Dos cortes continuados


Nos vencimentos,


Pois chegara a hora das contas


E dos descontos à fonte -


Entre os protestos que apontámos,


- Não sem primeiro lembrarmos


Os desastres de Lampedusa


Sem escusa,


Pelo excesso de carga


Que acaba


Nas profundas do inferno


Ou do Mediterrâneo, sempre palco


De histórias inverosímeis,


Embora com homens do norte,


E agora se vê pejado


Com corpos de homens do sul,


Nos barcos com excesso de gente


Que o medo faz cair


Nas malhas de batoteiros


Que os enganam impunemente -


Nós,


Pusemos, pois, a questão


Se era verdade ou não


O que soou por aí,


Sobre a parte do vencimento


Que recebiam do falecido


As viúvas e os viúvos,


A qual iria acabar, para se poder pagar


A dívida do país, reduzido


A uma viuvez contínua na estabilidade,


Na qualidade de devedor


De uma dívida perene de que se diz


Que nunca iremos pagá-la,


Nem à lei da bala,


De que já se fala.


Nem no tempo de Salazar


O dinheiro do falecido


Deixava de ser repartido


Entre o Estado e o enviuvado!


Então uma de nós, preocupada,


Mas optimista até dizer chega,


Lembrou que no estado social actual


Em que as famílias se dão tão mal,


Com violências de tipo penal,


Se se ameaçar cortar


A meia pensão do falecido,


(disse a tal de nós com ar


Não de todo convencido),


As famílias se irão


Dar melhor, com diminuição


Da verborreia da má criação,


E até dos crimes que por aí se dão


Em que se esfola e se mata ao calha


Por dá cá aquela palha.


Eis, pois, uma boa razão


Para a prossecução do corte na pensão


Da viuvez: a diminuição


Dos crimes conjugais actuais,


Fatais,


A preservação


Dos maridinhos e das mulherzinhas


Com novos carinhos e tento nas línguas


Impeditivos dos crimes passionais


Conjugais.


Não há como estes governos que assim sabem


Manter a densidade da população


Com drásticas medidas de correcção


Na pensão e repercussão


Na educação!


E assim reconfortadas,


Com o que disse uma de nós


Esperta e sem salamaleque,


Continuámos a comer o queque


E a beber o café da manhã,


Que outra de nós pagou,


Porque fazia anos e agradeceu


Os parabéns que nos mereceu,


Na tristeza das previsões,


Mas na desculpa das próximas pensões


Redutoras de emoções


Sobretudo nas velhas gerações.


Como diria Camilo,


- Embora só contra as mulheres letradas


O tivesse dito -


“Pais de família! Tento nas bofetadas


Entre malcasados e malcasadas!


Que o Estado não paga pensões


A gentes desencaminhadas


Que se matam entre si, mal informadas.


As balas


Deixai-as para os suicídios


Não para os assassínios!


Para que melhor se alombe


Com a hecatombe


Do desespero,


A auto-imolação,


Quer seja pela droga ou pelo tiro


Dá mais notoriedade,


Mais dignidade,


Na filosofia


Da redução da demografia.


E o país fica mais bem-visto


Com isto


De ser riscado do mapa


Sem a capa


Do papa a proteger,


Nem sequer a ideia


Do chegar, vir e vencer


Que já nos foi.


 


 Berta Brás


 


(*) http://fineartamerica.com/featured/four-ladies-christy-vitale.html

0