O medo do desconhecido sempre mexeu com o imaginário humano. Quanto menos instruído mais cria e fantasia o Homem, na tentativa de explicar o inexplicável. Para isso contribui não só o nível educacional e as referências religiosa e cultural (a fé, o bem, o mal), mas também as influências ambientais.
Nas regiões mais distantes do país, onde o isolamento limitava o acesso ao conhecimento científico da época, para suprir as dificuldades vivenciais e dar sentido aos fenómenos da natureza ou aos sobrenaturais, o povo apoiava-se nas crenças e crendices, nas diversas representações religiosas, nos mitos e lendas que o ajudavam a vencer o medo e a fortalecer o espírito. Na falta de uma adequada educação, a tradição, as crenças e superstições determinavam condutas, normatizavam regras do quotidiano, faziam futuras previsões.
A diversidade cultural dessas gentes de múltiplas origens permitiu uma maior aceitação popular e uma gama de interpretações que enriqueceu a fantasia do homem do interior. Mas todos eles, instruídos ou não, místicos ou supersticiosos, que cresceram ouvindo histórias, sabem que elas ganham vida no arquétipo imaginário do subconsciente humano.
O relógio mostrava cinco horas da tarde quando o caixão de um nosso querido amigo desceu à tumba. A comoção abafava o coração dos parentes e colegas que ali estavam. Na memória, surgiu-me o dia em que, chegando ao hospital pela primeira vez, fui a ele apresentada. Era de uma geração de médicos mais velha. Por educação e consideração, tratei-o por Senhor. Ele gentilmente estendeu-me a mão e sorriu, dizendo: - O Senhor está no céu, René ao seu dispor. Seja bem vinda a Uberaba. O Dr. René era oriundo da comunidade arménia estabelecida na cidade. Homem alegre, espirituoso, gostava de conversar com os colegas na sala de médicos, enquanto esperava a sua vez de operar. Eram histórias curiosas e piadas relatadas com graça que provocavam risos e relaxavam. Gostava de contar que num passeio à Alemanha, ao comprar um par de sapatos de cromo alemão, chegou à conclusão que não era tão abastado como supunha. O que ele ganhava como médico do interior, lá não dava nem para “saída”... Morreu por volta dos 56 anos, vítima de alterações cardiocirculatórias. Apreciador de chocolate chegava a consumir uma caixa de bombons da Kopenhagen por dia.
Findada a cerimónia, pouco a pouco, as pessoas dispersavam-se e partiam. Dia claro ainda, meu marido convidou-me a percorrer os jazigos à procura de antepassados conhecidos, gente amiga ou que fez história na região. As alas principais cercadas por altos e odorosos ciprestes, os túmulos mais ricos ornados com estátuas de anjos e santos em mármores de Carrara importados, prestavam ao defunto a derradeira homenagem. Era a arte enchendo de paz e beleza o Campo Santo. Flores, algumas já murchas, denunciavam que alguns haviam chegado recentemente à sua eterna morada. Tão distraídos estávamos que nem percebemos que a noite já se aproximava. Despertou-nos do passeio esparsos e grossos pingos de chuva que começaram a cair. Não havíamos percebido o horário. Apertámos o passo procurando a saída. A chuva engrossara. Foi quando, no lusco-fusco do final de tarde, cortinado pela água que descambava, ouvimos, assustados, uma voz que nos convidava. Aqui, aqui, venham, há lugar para mais dois! Olhamos em volta, ninguém à vista. Estacámos petrificados! Não conseguíamos dar um passo, o sangue parecia ter gelado nas veias, as forças abandonavam-nos... Boca seca, coração disparado, tornámos a ouvir o convite, desta vez mais directo e localizado. - Aqui doutor, no mausoléu! Venham abrigar-se! Era o guarda do cemitério que dentro do monumento aguardava a chuvarada passar. Com um sorriso amarelo, agora mais calmos, agradecemos a oferta e corremos pela álea em direcção do baixo e velho portão de ferro ornado que, para nosso desespero, estava fechado. A chuva de “manga”, tão comum naquela época, com a rapidez que começou, amainou. Mas voltar e chamar o homem, nem pensar! Para espanto de meu marido, galguei com uma destreza e rapidez que eu mesma desconhecia que tinha e me vi na calçada, do outro lado. Meu marido não quis ficar atrás, seguiu-me no acto.
Difícil foi explicar a quem passou e assistiu espantado a cena inusitada, porque um casal de jovens médicos, chegados da capital, pulou o portão do cemitério àquelas horas e não chamou o guarda!?
Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 11/10/14
