Hemorroíssa, aquela que sangra constantemente pelas partes íntimas.
Episódio contado no Evangelho de São Marcos:
- Foi dentre a multidão que a doente conseguiu aproximar-se de Jesus e tocar-lhe nas vestes talares[1] na esperança de que acontecesse o milagre da cura;
- Aquela mulher não só sofria dessa doença mas também estava na miséria por ter gasto tudo o que possuía com os médicos que não conseguiam curá-la; e a doença causava-lhe tanta vergonha que não ousava falar com o Senhor para lhe pedir a cura; mas conhecendo os relatos dos milagres anteriores de Jesus, ela tinha por suficiente tocar-Lhe a fímbria das vestes;
- O Senhor sabia exactamente quem, dentre a multidão, O tinha tocado, do que padecia e quem assim tinha sido curada;
- A hemorroíssa, neste episódio, não somente foi curada do fluxo que tanto a atormentava e envergonhava mas, ainda mais, encontrou a salvação;
- Como disse então o Senhor: “Filha, a tua fé salvou-te” – e salvou não apenas do fluxo de sangue mas, sobretudo, saiu dali santificada.
* * *
Mas esta passagem dos Evangelhos tem paralelo nos tempos modernos, em Portugal. Ou melhor, ia tendo paralelo mas...
O meu amigo tinha então 11 ou 12 anos (hoje está avançado nos 80), frequentava o Seminário e tinha por costume manter um pequeno canivete no bolso.
Certa vez, o Padre Francisco da Cruz SJ, já então célebre, foi visitar o dito Seminário que se encheu de visitantes das redondezas e a quem falou na igreja que então se mostrou pequena para tanta gente.
O Padre Cruz apresentava-se sempre de vestes talares e nunca os comuns mortais lhe terão visto as calças nem as mangas da camisa. E então, com o avançar da idade e os frios inerentes à velhice das magras carnes, para além da batina usava também uma capa a roçar o chão.
Vai daí, o meu amigo decidiu aproximar-se do Reverendo Padre Cruz numa passagem apertada que deveriam atravessar para acederem a uma sala anexa à igreja onde decorreria de seguida uma sessão privada para os seminaristas e cortar-lhe uma ponta da capa que guardaria como recordação de tão veneranda figura e, no raciocínio do ainda menino, talvez mesmo como amuleto protector.
Posto em posição estratégica de modo a que o Padre Cruz lhe passasse ao alcance, eis chegado o momento em que era obrigatório o meu amigo baixar-se para alcançar a fímbria da capa e cortar a sua futura relíquia. Meteu a mão ao bolso para agarrar o canivete, embaraçou-se com os empurrões da multidão e eis que se produz o milagre.
Qual milagre? O de não ter conseguido agarrar o canivete, nada ter cortado e a capa do famoso jesuíta ter continuado incólume.
Eis como não se repetiu o milagre da hemorroíssa.
O meu amigo não reparou se o Padre Cruz chegou a perceber o perigo por que a sua capa passara, não lhe foi concedida absolvição por uma maroteira imaginada mas não realizada e eis que a história veio à baila «apenas» uns 70 anos depois da baldada ocorrência.
E assim se produziu um «milagre»... por ausência.
Lisboa, Janeiro de 2016
Henrique Salles da Fonseca
[1] - A palavra «talar» vem do latim «talus» que em português significa calcanhar; veste talar é aquela cujo comprimento vai até aos calcanhares.
