A bem da Nação

UM DEPOIMENTO HISTÓRICO

 


 O GOÊS PINTO: UM DOS MÁRTIRES DO UGANDA


 


I


 


ATRAVÉS de dois últimos milénios o sangue e as cinzas de milhares de pessoas, fortificadas com as águas lustrais de baptismo, argamassaram o edifício da Cristandade, do extremo Ocidental ao extremo Oriental. Nos meados dos anos 80 do século XIX no Reino do Buganda - o maior dos reinos da região que depois viria a constituir o Protectorado Britânico (1894) - houve uma grande matança dos cristãos, católicos e protestantes, que figurou na História da Cristandade como os MÁRTIRES DO UGANDA, num episódio que chocou e alertou o Mundo, contribuindo vigorosamente para a evangelização do Continente Africano.


 


Não vou descrever os factores sócio-políticos da perseguição dos Cristãos baptizados pelos missionários franceses da Congregação dos Padres Brancos (1878-81), convidados expressamente ao país pelo esclarecido Rei MUTASSA I através do jornalista HENRY M. STANLEY (l841-1904) em 1875, especialmente enviado pelo NEW YORK HERALD para o Este Africano à procura do missionário e explorador escocês DAVID LIVINGSTONE (1813-73).


 


O Uganda (abrangendo o Buganda e regulados periféricos) era dominado, antes da entrada dos Europeus na região, pelos árabes do Sultanato de Omã e Zanzibar cujos agentes haviam islamizado o povo. Os Padres Brancos após 3 anos deixaram o país face à oposição do povo às normas da Igreja Católica, condenando a feitiçaria, a circuncisão, a ablação do clítoris, a bigamia, a poligamia, o homossexualismo e os festejos pagãos. Com a morte do Rei MUTASSA  I , sucedeu-lhe o filho MWANGA II que, ao princípio, convidou os Padres Brancos para voltar ao país, porém com os conselhos do maquiavélico Imã MUSSAJI (MUSSA + HAJI?) passou a perseguir os Cristãos.


 


Aos 31.01.1885 ordenou a execução com esquartejamento e incineração de três jovens anglicanos: MARCOS KAKUMBA, JOSÉ RUGARAMA e NOÉ SERUANGA. No decurso de 1885 o missionário anglicano JAMES HARRINGTON (l847-85), sagrado Bispo do ESTE EQUATORIAL AFRICANO (Jan.1885) tentou entrar no Buganda pela região do LAGO e o Rei mandou secretamente matá-lo com sua comitiva duns 50 carregadores incluindo alguns catecúmenos e o cozinheiro-chefe (PINTO, natural de Mapuçá-Bardez, GOA) aos 29 de Outubro de 1885.


 


Estribado no sucesso do seu hediondo crime, o Rei MWANGA II viu-se censurado pelo seu Mordomo-Real e profundo católico JOSÉ MACASSA BALIKUDDEMBE.  O soberano não gostou da censura e mandou prendê-lo e executá-lo com decapitação e incineração do seu corpo aos 15-11-1885. Decorridos seis meses, orgulhoso dos seus impunes crimes, ordenou a matança dos cristãos, anglicanos e católicos, entre 25 de Maio e 23 de Junho de 1886.


 


Segundo Wikipedia morreram 22 católicos e 23 anglicanos a mando do soberano entre requintes de suplícios: queimados vivos (26), castrados (6), decapitados (6), mutilados/esquartejados (4), baleados/lancetados (3).  


 


Segundo D.C.ABDY in  The Martyrs of Uganda (Londres, 1928), pereceram 43 católicos e 34 protestantes. Sou levado a supor que por ordem do Rei morreram nessa ocasião mais de uma centena de ugandeses. KIZITO (1872/86) foi a 1a vítima do malvado, enquanto a última vítima foi o grande obreiro social JOSÉ MARIA MUSEII decapitado aos 27/01/1887. Esses 22 mártires do Uganda foram canonizados em 1964. Sobre os MÁRTIRES DO UGANDA muito se tem escrito em inglês sob a forma de livros e folhetos, além de artigos da imprensa. O Rev. Dr. FRANKLIN J. BALASUNDARAM (Professor do Departamento de História da Cristandade, Bangalore, Índia), R. RASHIKABBA, CHENUBRUNO et alii são alguns desses escritores da actualidade.


 


II


 


Em 1964 na minha tese ao I Congresso das Comunidades Portuguesas em  Lisboa, relatara sumariamente o episódio dos MÁRTIRES DO UGANDA e na elaboração do meu DICIONÁRIO DE GOANIDADE acabo de registar que, na matança do Bispo anglicano e da comitiva, fora liquidado o cozinheiro-chefe de nome PINTO, um goês natural de Mapuçá (Bardez-Goa-Índia), com arremesso de setas e uma saraivada de pedras!


 


Do diário do infortunado Bispo anglicano JAMES HARRINGTON constam a solicitude e o carinho com que o bondoso católico goês tratara dele, mantido preso e manietado, numa choupana a tiritar de frio juntamente com o goês PINTO (de nacionalidade portuguesa) e uma vintena de pessoas, em data de 23 de Outubro de 1885. O goês PINTO ocupava-se em cozinhar as refeições do Bispo e de cuidar do seu conforto pessoal!     


O Rei MWANGA II ordenara que o Bispo, o seu cozinheiro e os homens da sua comitiva fossem selvaticamente executados pelos sicários bugandeses (animistas, pagãos e islâmicos) com ódio ferrenho aos cristãos. Embora católico, o goês PINTO fora contratado como cozinheiro-chefe do malogrado Bispo, não fazendo parte da campanha de Evangelização da Igreja Anglicana entre os bugandeses. PINTO morreu e foi sem dúvida um dos MÁRTIRES DO UGANDA atingido pelos  sicários  como  cristão  ou seguidor de CRISTO!


Sua morte e seu martírio foram olvidados pela Igreja Católica e até à data nenhum escritor goês se lembrou de reabilitar a sua pessoa, e o seu carinho devotado ao Bispo, sendo votado ao mais completo esquecimento. Nos séculos XIX e XX existiram florescentes Comunidades Goesas no Uganda (em Kampala, Entebbe e Jinja) que nada fizeram por um filho de Goa perecido na matança de 29/10/1885. E a Igreja de Roma também nada fez até aos nossos dias pelo infeliz Goês que passara à História da Cristianização do Uganda no século XIX.


 


Em 1570 quarenta Jesuítas (padres, noviços e irmãos leigos) haviam embarcado em Lisboa a caminho das Índias Ocidentais, mas eles foram apanhados no alto-mar por um corsário calvinista chamado JACQUES SOURIE, que os matou sem dó nem piedade. Em 1854 foram beatificados com o fortíssimo apoio da Sociedade de Jesus. Na altura do seu morticínio eles não estavam empenhados em qualquer campanha de evangelização, embora tencionassem tal fazer nas Índias Ocidentais. Canonicamente a Igreja de Roma não hesitou em beatificá-los.


 


O cozinheiro-chefe do Bispo anglicano e não empenhado na Evangelização dos bugandeses, só pelo facto de ser cristão ou seguidor de CRISTO,odiado pelos sicários, foi ele barbaramente assassinado com os MÁRTIRES DO UGANDA aos 29/10/1885.  Há um paralelismo entre a selvática matança dos 40 Jesuítas já beatificados (1854) e a matança do Bispo anglicano e o seu cozinheiro-chefe de sobrenome PINTO, de cepa goesa e de nacionalidade portuguesa (1885), todavia é inconcebível que o mártir PINTO tenha sido votado ao olvido pela Igreja de Roma e pelos seus milhares de conterrâneos que viveram em Uganda através dos séculos XIX e XX, sem nada feito sobre o seu martírio! Estou certo que a JUSTIÇA DIVINA (e não humana) tenha devidamente galardoado ao dito PINTO com devido lugar entre os Bem-aventurados. Acabo de registar o citado PINTO, goês natural da Mapuçá (Bardez-GOA) e português de nacionalidade, no meu DICIONÁRIO DE GOANIDADE levantando a ponta do pesado manto que o encobria, jogado ao mais completo olvido... até quando, senhores?


 


Alcobaça, 16/09/2009


                                              


 Domingos José Soares Rebelo

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