A bem da Nação

UM COMENTÁRIO ALARGADO

 


            


Do livro “Cravos Roxos” (1981, Santelmo”), retiro o texto “Georges, anda ver o meu País de viajantes”, como comentário ao texto de Joaquim Reis, “As viagens de Mário Soares”:


 


Diz-se para aí                                                                                                                    


Que muito bem fazem eles em viajar,


Para poderem conhecer


Os sítios onde se irão divertir


Sempre que o governo o permitir


- E permite geralmente,


Generosamente.


Também viajam para espalhar


O nome de Portugal


Após a sua redução


Territorial,


Que o governo permitiu


Gloriosamente.


Georges, anda ver o meu País de viajantes…”


Viajam pelo mundo inteiro


- Especialmente o terceiro –


Por causa do petróleo


A importar,


E das pessoas em excesso


A exportar


Do reduzido território.


Também viajam pelo segundo


E pelo primeiro mundo


Procurando esclarecimentos


E empréstimos


E mercados


Recusados


Pelos povos


Incompreensivelmente poupados.


Georges, anda ver o meu País de viajantes


Infatigáveis itinerantes,


Não pelo mar propriamente


Como antigamente,


Sujeitos a privações,


Mas de avião


Transportando comodamente


Saudações


Aos povos que nos vão estender a mão


Segundo as nossas petições.


Levam séquito normalmente


Para causarem boa impressão


E granjearem civilizadamente


Amizade e cooperação.


Amizade e cooperação.


Amizade e cooperação.


Georges, anda ver o meu País de viajantes…”


Que completam a sua educação


À custa da nação


Submissa perante a imposição


De se granjear protecção


Declinada, naturalmente,


E sempre amavelmente.


Mas entretanto,


Os nossos viajantes viajaram,


Depois que o seu próprio território entregaram,


Sem terem querido conhecê-lo,


Nem amá-lo,


Nem reconhecê-lo.


Entretanto,


Os nossos viajantes passearam,


E pedincharam


Abrigo para aqueles que o tinham


Antes


E o perderam


Por causa dos viajantes


Amigos de viajar


Pelo ar


Comodamente


E não pelo mar


Como dantes,


Georges…


 


 Berta Brás

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