A bem da Nação

TROVAS PARA O POVO

 


 


e... não  só!


 


 


De um pequeno livreto, que deve ter uns cem anos, e na contra capa anuncia montes de livros a preços populares, como Orações a $30, Trovas para o Povo a $50 (de onde saíu este “fado”!), História de D. Inês de Castro a 1$00, Romeu e Julieta a 2$00, Texas Jack, 100 números a $60, bem como Capitão Morgan, e O que é o Casamento de Honoré de Balzac a 2$00, e até um Arte de Lavar Roupa por $50! (Tudo nos bons velhos Escudos portugueses, que valiam ouro!)


Uma maravilha!


 


 


 


De todos estes fados elegi um que vem preencher a dificuldade de muito pretensos nobres completarem a sua árvore genealógica!


 


Minha Família


(Para ser cantado com música do Fado Alexandrino)


 


 



MOTE


Minha família é distinta


E de nobre posição,


Eu pertenço a boa gente


Creiam, não lhes minto não...


 


GLOSAS


 



 



Minha mãe é vendedeira


De tremoço e burrié,


Tenho uma tia que é


Creada d'uma parteira.


Minha avó é lavadeira


Lava roupa branca e tinta,


Meu avô todo se pinta


A vender fava torrada,


Descendo de gente grada


Minha família é distinta...


 


Tenho um primo cauteleiro


Um tio que vende sorvetes,


Outro que é moço de fretes,


Um cunhado que é padeiro,


Tenho um sobrinho aguadeiro,


Varredor tenho um irmão,


Meu padrinho é sacristão


Meu pae é moço de cego


Sou tipo nobre, não nego,


E de nobre posição !...


 


Minha sogra vende sinas,


Minha sobrinha anda ao trapo,


O meu sogro, homem pacato,


É guarda d’umas sentinas.


Leva cartas ás meninas


Um coxo que é meu parente,


Também tenho um descendente


Que na praça vende flores,


Como vêem meus senhores


Eu pertenço a boa gente! ..


 


As minhas primas Linhares


São amas, criam gaiatos,


Eu deito gatos em pratos


Bacias e alguidares...


Donairosos titulares


Eu tenho com profusão,


Vivo n'um louco estadão


E livre de más penhoras


Mas... co'a barriga a dar horas


Creiam não lhes minto não!...


 


***


Para “completar”, uma trova do século XV.


O primeiro Conde Vimioso, D. Francisco de Portugal, filho (ilegítimo) do bispo de Évora, D. Afonso de Portugal, tinha, pela sua posição e seu talento para a poesia, um papel muito importante nos Serões do Paço. Em 1515 El-Rei Dom Manuel deu-lhe o título de Conde.


Sua mulher, D. Joana de Vilhena, entretinha as damas que a visitavam, com a leitura de algumas obras de seu marido.


A trova que se segue foi por ele composta quando em 1498, em Belém, aborrecido, enquanto aguardava embarcar para África, onde foi comandar a praça de Arzila.


 


Trova do Conde de Vimioso estando em Belém


enfadado do tempo e dos couzas dele”.


 


Isto acho de Belem:


Vejo d’além uns oiteiros,


Que não dizem mal nem bem


A quem conte meus marteiros.


 


Falo-lhes sem esperar


Resposta do que lhes digo;


Outro tanto vi achar


No amigo e no inimigo.


 


D’isto vivo em Belem,


Descanço de ver oiteiros,


Que respondem c’o que tem


E são muito verdadeiros.


 


20/05/2013


 


 Francisco Gomes de Amorim


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