A bem da Nação

TROCOS PARA A TROIKA


 


É La Fontaine que nos vem contar,


Nada contente,


A fábula do Veado doente


A quem acudiram os veados salvadores,


Grandes impostores,


Mais para o depenar


Do que para o defender.


Isso é coisa tão comum


Que até se passa entre nós,


Dantes, orgulhosamente sós,


Que, porque estamos moribundos,


Agora humildemente acompanhados,


Pedimos auxílio aos doutores


De outros mundos


Mais competentes e preocupados,


Aparentemente,


Que nos acudiram


Decentemente,


Mas exigiram


Paga avultada,


Antecipada,


Dos pastos magros


Da pátria amada.


 


«O Veado doente»


«Numa terra cheia de veados, um Veado caiu doente.


Imediatamente


Muitos camaradas, para o verem,


E o socorrerem


Ou, sequer, consolarem,


Ao seu catre acorreram


Que se desunharam:


Multidão importuna!


“Eh! Senhores, deixai-me morrer.


Permiti que seja a Parca a despachar-me


Da forma que lhe é costumeira;


E acabai com a choradeira.”


De forma alguma: os consoladores


Este triste dever desempenharam,


Só quando Deus quis, o abandonaram:


Não sem que primeiro


Um copo bebessem, por inteiro.


Isto é, sem que deixassem de reconhecer,


Pelo trabalho que estavam a ter,


O seu direito a uma boa festança.


Todos se puseram a rapar os ramos da vizinhança.


A ração do Veado enormemente decaiu.


Ele não encontrou nada mais para roer


Dali em diante:


De um mal que teve, num pior caiu,


E se viu


Reduzido, finalmente,


A jejuar e a morrer


De fome acutilante.


Fica muito caro a quem por vós chama,


Ó médicos do corpo e da alma!


Ó tempos! Ó costumes!


Por mais que me farte de contra isso bradar,


Todos se fazem ostensivamente pagar.»


 


La Fontaine já bradava,


Prova de que se preocupava


Com o que no seu tempo acontecia.


Mas afinal,


Nada vem a ser diferente


Neste nosso Portugal


De hoje em dia:


É ou não verdade


Que a ocasião que vivemos


De tanta aleivosia,


Se assemelha bastante


À do veado doente


A quem os veados salvadores


- Os impostores! -


Se apressaram a cobrar


Para mais depressa o matar?


Nem é preciso esclarecer!


Afinal os nossos pastos


Não passam de trocos


Para uma Troika exigente


Que não permite a estes lorpas


Um recomeço decente.


É pior do que antigamente,



No tempo do La Fontaine.


 


 Berta Brás

0