A bem da Nação

TOUJOURS VOLTAIRE...

«Il faut cultiver notre jardin»


 


Disse-o o sábio Pangloss,


Filósofo optimista


Do “Candide” de Voltaire,


Que nas misérias humanas


Causadas por cataclismos,


Pelas hediondezas humanas,


Sobrenaturais e outras mais,


Que ele e os seus amigos atravessaram


Que se fartaram,


O que contava


Não era manter a calma


Mas cada um


O seu jardim cultivar,


O que se pode sempre entender


Num sentido figurado,


Sem precisar de ser


Muito explicado.


O mesmo sentido não tem


A fábula de Florian,


Sobre o trabalho do campo


Sem alegoria,


Mas com alegria e eficácia,


Contra a filosofia da teoria


Com pertinácia,


E sem pertinência.


«Os dois jardineiros» de Florian


Dois irmãos jardineiros receberam por herança


Um campo,


De que cada um cultivava metade;
Ligados por estreita amizade,


Faziam juntos,


Da casa, a liderança.


Um deles, chamado João, belo espírito, bom conversador,


Julgava-se um grande doutor;


E o Senhor João passava a vida


A ler o almanaque, a olhar o tempo


E o catavento e os ventos do seu tormento


Para tentar saber.


Em breve, dando curso ao seu génio raro,


Quis descobrir como de uma ervilhinha


Milhares de ervilhas pudessem brotar tão depressinha;


Porquê o grão da tília,


Que produz uma grande árvore, é mais pequeno, todavia,


Do que a fava que morre ali, a dois pés;


Enfim, por que secreto mistério


Esta fava que se semeia ao acaso no terreno,


Sabe volver-se no seu seio,


Deita a raiz para baixo e o caule para cima.


Enquanto ele sonha e se aflige,


Por não penetrar os tão importantes segredos


Dos seus credos,


Não rega os prados:


Os seus espinafres, a sua alface


Secam de pé; o vento norte mata-lhe as figueiras


Que ele não cobre de terra.


Nada de fruta vendida, nenhum dinheiro no bolso;


E o pobre doutor, com os almanaques do seu ócio,


Tem por único recurso o seu irmão.


Este, desde manhãzinha,


Trabalhava, cantando alegre canção,


Cavava, tudo regava, desde o pessegueiro às azedas,


Vitoriosamente.


Sem querer discorrer sobre o que ignorava


Semeava honestamente,


Para poder colher.


Por isso, no seu terreno tudo se dava à maravilha,


Como na Ogígia ilha;


Ele tinha dinheiro, fruta, prazer.


Foi ele que o irmão sustentou;


E quando o Senhor João surpreendido


Lhe veio perguntar como tinha acontecido:


“Meu amigo, respondeu este, eis aqui o mistério:


Eu trabalho, tu reflectes, em busca da luz


Do saber;


Qual de nós mais produz?


Tu atormentas-te, eu divirto-me a valer;


Qual é de nós é o maior sabedor?”


Não se trata de uma fábula, é bem de ver.


É a história dos homens, é a história dos povos.


Há os que trabalham mais, os que trabalham menos,


Mais o menos do que o mais


A maioria das vezes


Entre os povos soezes.


Cultivar o jardim é bem preciso,


Em sentido próprio e figurado.


Sabemo-lo por experiência própria,


Por vergonha imprópria,


Por falta de siso,


Pelo nosso fado.


Quanto à história do Forian


Sobre dois irmãos tão diferentes,


Mais valera


Que o irmão do Senhor João


Que o alimentara,


O ensinasse como trabalhar a terra


Ou ele próprio o fizesse,


Para que a terra não secasse


E o campo não morresse.


Nós também


Deixámos secar a terra,


A floresta ardeu.


E ninguém dos que governam


Nos valeu.


 


 Berta Brás

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