A bem da Nação

TODOS TEMOS UM «BERGANTIM»

POEMAS QUE EU ESCREVI NA AREIA


 


I


Meu bergantim, onde vens,

Que te não posso avistar?

Bergantim! Meu bergantim!

Quero partir, rumo ao mar...

 

Tenho pressa! Tenho pressa!

Já vejo abutres voando

Além, por cima de mim...

Tenho medo... Tenho medo

De não me chegar ao fim.

 

Meus braços estão torcidos.

Minha boca foi rasgada.

Mas os olhos, estão bem vivos,

E esperam, presos ao Céu...

 

Que haverá p'ra além da noite?

P'ra além da noite de breu?

 

Ah! Bergantim, como tardas...

Não vês meu corpo jazendo

Na praia, do mar esquecido?...

Esse mar que eu quis viver,

E sacudir e beijar,

Sem ondas mansas, cobrindo-o...

 

Quem dera viesses já...

Que vai ficando bem tarde!

E eu não me quero acabar,

Sem ver o que há para além

Deste grande, imenso céu

E desta noite de breu...

 

Não quero morrer serena

Em cada hora que passa

Sem conseguir avistar-te...

Com meu olhar enxergando

Apenas a noite escura,

E as aves negras, voando...

 

II

 

Meu bergantim foi-se ao mar...

Foi-se ao mar e não voltou,

Que numa praia distante,

Meu bergantim se afundou...

 

Meu bergantim foi-se ao mar!

Levava beijos nas velas,

E nas arcas, ilusões,

Que só a mim me ofereci...

 

Levava à popa, esculpido,

O perfil, leve e discreto,

Daqueles que um dia perdi.

 

Levava mastros pintados,

Bandeiras de todo o mundo,

E soldadinhos de chumbo

Na coberta, perfilados.

 

Foi-se ao mar meu bergantim,

Foi-se ao mar... nunca voltou!

E por sete luas cheias

No areal se chorou...

                   

  Alda Lara


 


Todos temos um «bergantim». O meu chamava-se «Uruguai» e morreu esta noite.


 



 


«Uruguai» (27 de Abril de 2001 - 16 de Março de 2013)

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