A bem da Nação

SILVESTRE E O IDIOMA

 


Silvestre quer saber


Por que razão eu estrago o português


Escrevendo palavras que nem há.


Silvestre quer saber...


 


Não é a pessoa que escolhe a palavra,


É o inverso.


Isso eu podia ter respondido.


 


Mas não.


O tudo que disse foi:


É um crime passional, Silvestre.


É que eu amo tanto a Vida


Que ela não tem cabimento


Em nenhum idioma.


 


Silvestre sorriu.


Afinal, também ele já cometera


O idêntico crime:


Todas as mulheres que amara


Ele as rebaptizara, vezes sem fim.


 


Amor se parece com a Vida:


Ambos nascem na sede da palavra,


Ambos morrem na palavra bebida.


Mia Couto.pngMia Couto


in "Idades, Cidades, Divindades", Lisboa: Editorial Caminho

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