Desconheço o posicionamento ideológico do autor, mas absolvo-o de qualquer preconceito ao pronunciar-se como aqui se pronunciou, tão evidente e intocável é a sua constatação. Até porque é mais fácil diagnosticar quando a realidade se apresenta esventrada em toda a largura. Digamos que agora é mais uma questão de autópsia, sempre mais fácil do que o diagnóstico preventivo do mal.
O autor diz que está tudo "agora em queda livre, ruindo sobre si mesmo, numa maciça implosão, tal qual as torres gémeas do onze de Setembro". Ora, custa muito a crer nisso, mas os actuais acontecimentos parecem legitimar a tese daqueles que vêm defendendo que a implosão das torres gémeas nova-iorquinas nada teve a ver com a Al Kaeda. Apontam como autores os tais poderes obscuros, "cabala de figuras sombrias" que acumulam "vastas quantidades de riqueza e poder sobre mercados, sociedades anónimas, ramos de actividade económica, meios de comunicação, forças armadas e nações inteiras". Simples aparências e coincidências? Claro que é muito complicado imaginar uma coisa de tamanha malignidade, concebida fria e calculadamente para atingir um determinado fim, sem olhar aos seus catastróficos efeitos humanitários, para mais tendo como palco a grande metrópole mundial que é a cidade de New York, pois é algo que seria mais digno do próprio Belzebu que da espécie humana. Mas aqui está, cada vez mais parecem ténues as razões para considerarmos a espécie humana a escolha mais perfeita do Criador ou do Evolucionismo, para liderar os destinos do planeta. Uma vez que a razão nos impede de acreditar no Criacionismo (eu pelo menos não acredito), só se pode admitir que algo no Evolucionismo trocou as voltas às leis da natureza. Ou seja, uma raça de macaco emergente deve ter usurpado o trono a uma outra espécie qualquer.
A crer naquela tese, então teríamos de aceitar que os poderes ocultos do capitalismo internacional são mais tenebrosos do que possamos imaginar e que em devido tempo interpretaram os sinais de degradação do sistema e quiseram alterar ou inverter o rumo dos acontecimentos, com o intuito de garantir a perenidade dos seus incomensuráveis lucros. Mas se assim é, parece que não conseguiram no imediato os seus desígnios, a menos que a aposta tivesse visado um futuro que não lobrigamos ainda, por relativamente distante. Futuro que está para ressurgir de escombros, não das torres, uma mera simbologia material, mas dos tormentos e agruras que a humanidade pode vir a suportar para se reorganizar futuramente em bases diferentes. No entanto, agir em tal escala dimensional e temporal seria obra mais de demónios ou deuses que de humanos, tal a maquinação dos propósitos e a desumanização dos actos. E se obra de deuses, então estaríamos perante um paradoxo moral, só compreensível numa perspectiva bíblica, em que caberia a teoria malthusiana mas num plano mais complexo e inapreensível aos nossos olhos.
Deixando de lado o cenário ficcional, que apenas serve para entretenimento de um reformado, é possível que a actual crise possa ter consequências mais graves e nefastas do que a de 1929, como alguns já vaticinam. Se o idealismo de Roosevelt e a teoria de Keynes geraram um sistema que funcionou ao longo de muitas décadas, é óbvio que não seria sensato esperar dele uma infinita longevidade. Tudo na vida tem o seu términus um dia, o próprio universo se altera e recompõe em ciclos. E depois de, muito recentemente, Allan Greenspan ter confessado que errou ao acreditar que as organizações financeiras seriam capazes de se auto-regularem, é caso para alimentarmos poucas ilusões acerca da regeneração benigna do actual sistema, nem mesmo com a maciça transfusão de sangue que os países vêm fazendo em seu proveito. Sou um leigo na matéria, mas penso que há uma diferença entre a actual situação e a de 1929. O actual mercado financeiro mundial cresceu e atingiu una dimensão e complexidade incomparáveis com os tempos do passado, mas sem que entretanto lhe tivessem insuflado anticorpos suficientes para ele se depurar e livrar-se das gripes e pneumonias do futuro. Ora, neste momento o sintoma é de uma pneumonia aguda, julgo eu. É melhor irmos admitindo o pior cenário, o ruir de todo um sistema para poderem emergir os alicerces de um mundo referenciado por outros paradigmas e valores. Se virmos bem, o neoliberalismo e a globalização não contribuíram senão para as tais chocantes e demenciais riquezas obscuras, pois as estatísticas da pobreza e da fome no mundo não evoluíram minimamente desde 1980. Desde o advento da globalização.
