A bem da Nação

SER PORTUGUÊS

 


 


Teixeira de Pascoais (1878-1952)


 


 


Teixeira de Pascoaes, pseudónimo literário de Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos, (Amarante, 8 de Novembro de 1877 — Gatão, 14 de Dezembro de 1952) foi um poeta e escritor português, principal representante do Saudosismo.


 


Para saber mais, ver p. ex. http://pt.wikipedia.org/wiki/Teixeira_de_Pascoaes


 


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Ser português é também uma arte, e uma arte de grande alcance nacional, e, por isso, bem digna de cultura.


 


O mestre que a ensinar aos seus alunos, trabalhará como se fora um escultor, modelando as almas juvenis para lhes imprimir os traços fisionómicos da raça lusíada. São eles que a destacam e lhe dão personalidade própria, a qual se projecta em lembranças no passado, e em esperança e desejo no futuro. E, em si, realiza, deste modo, aquela unidade da morte e da vida, do espírito e da matéria, que caracteriza o Ser.


 


O fim desta Arte é a renascença de Portugal, tentada pela reintegração dos portugueses no carácter que por tradição e herança lhes pertence, para que eles ganhem uma nova actividade moral e social, subordinada a um objectivo comum superior. Em duas palavras: colocar a nossa Pátria ressurgida em frente do seu Destino.


 


As Descobertas foram o início da sua Obra. Desde então até hoje tem dormido. Desperta, saberá conclui-la... ou, melhor, continuá-la, porque o definitivo não existe.


 


RAÇA


 


Refiro-me ao sentido que anima, neste livro, a palavra raça.


 


Empregámo-la como significando um certo número de qualidades electivas (num sentido superior) próprias de um Povo, organizado em Pátria, isto é, independente, sob o ponto de vista político e moral.


 


Tais qualidades são de natureza animal e espiritual, resultantes do meio físico (paisagem) e da herança étnica, histórica, jurídica, artística, religiosa e mesmo económica.


 


Herança, neste caso, significa também tradição.


 


Uma raça possui os caracteres de um ser vivo, e como tal a devemos considerar.


 


O livro, edição (3ª) de Assírio & Alvim, tem um prefácio, que só li em parte, de Miguel Esteves Cardoso, que me surpreendeu por não usar palavrões, e me desgostou, porque atribui o livro à personalidade de Teixeira de Pascoais, e não ao sentimento profundo nacional do nosso país. Julgo que este livro foi escrito durante a 1ª república, quando o sentimento lusíada já fervilhava, como hoje fervilha, contra os estrangeirados, os bota-abaixo, os ateus e os democráticos, que tudo sacrificam por uma ideia política alheia e desastrosa.


 


HERANÇA E TRADIÇÃO


 


Estas palavras têm, para nós, um sentido colectivo.


 


Se o português, como indivíduo, herda as qualidades de família, herda igualmente as de sua Raça, porque o homem não cabe dentro dos seus limites individuais.


O português participa também da herança étnica, histórica* ou tradicional, adquirindo assim uma segunda vida, que, por mais vasta, abrange e domina a sua existência de indivíduo.


 


CARÁCTER OU PERSONALIDADE


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O carácter é a expressão total das qualidades, conservadas e transmitidas pela herança e tradição, que definem uma Raça.


A sua actividade visa um fim social, económico, religioso, artístico, etc.


 


*Daí o valor da História, o conhecimento do Passado, esse tempo em que a Raça, pela sua força de mocidade e de instinto de conservação e domínio, criou as suas instituições jurídicas e políticas. Por elas devemos hoje orientar a obra renovadora de Portugal.


 


O homem transviado tem de voltar atrás, ao local seu conhecido, para aí retomar a verdadeira via, o rumo que o levará ao seu destino. O que parece um regresso não é mais, afinal, do que um avanço.


 


Durante a mocidade é que um homem ou um Povo cria os traços fundamentais do seu carácter, que influi vigorosamente sobre o meio, e este sobre aquele. É no período da viva Sensibilidade que as almas se definem e, de acordo com a sua natureza, caminham para o seu destino... Mas se a doença ou o cansaço as enfraquece, precisam de voltar a respirar a pura atmosfera da sua aurora; e ganhando novas energias, poderão seguir a viagem interrompida.


 


Muita tolice foi dita e muito erro cometido depois do 25/4. Pensaram só no Futuro e esqueceram-se de que o carácter do Português está no Passado e na História, não num Futuro inexistente e aleatório. E quiseram fazer o Futuro com a Democracia estrangeira e catastrófica. E Portugal, esquecendo-se de que tem um carácter próprio, edificado em 800 anos passados, preparou-se afoitamente para marchar para o Abismo, o Nada, o Inferno. Mas que gente é essa que parece querer destruir Portugal? São os estrangeirados, que acham que Portugal deve ser como a Suiça, como a Finlândia, como qualquer país que não conhecem senão superficialmente, apenas pela aparência das coisas. É certo que há semi-portugueses, como o asneirento Miguel Esteves Cardoso, que prefacia mal este livro de Teixeira de Pascoais; e como o verrinoso Miguel Sousa Tavares, que chamou "Palhaço" ao Presidente da República; como tantos outros semi-letratos ou analfabetos, que não têm vergonha nem consciência da sua ignorância ou estupidez. Até o novo Cardeal de Lisboa, D. Manuel Clemente, ex-bispo do Porto, afirmou que a gente do Norte é mais coesa. A gente do Norte é mais coesa, porque é simplesmente mais bairrista, tantas vezes morbidamente. E o bairrismo tem limites, sem os quais se transforma em paranóia: mania da grandeza acompanhada da mania da perseguição. E o Sr. Cardeal pôs o dedo na ferida quando disse que eles nunca foram capital. Não interessa a coesão da gente do Norte, se não for também a coesão da gente de todo o país.


 


Outro erro do pós-25: a mania das independências, da separação, para entregarmos a nossa terra, a nossa Pátria a estrangeiros, que fazem pouco de nós. E têm razão em fazerem pouco de nós, quando nós nos vangloriamos com a nossa inferioridade.


 


 


Quanto a estas qualidades, são próprias da Raça que devemos cultivar. Não há maior erro que a pretendida substituição das qualidades próprias por aquelas que admiramos nos outros Povos. Destruímos por completo o nosso carácter e adulteramos, em nós, o que há de bom nos estrangeiros. Não troquemos a nossa figura pela máscara importada.


 


Ao espírito simiesco, de imitação, oponhamos o espírito de iniciativa criadora.


 


Mas temos nós qualidades próprias? Responde afirmativamente a nossa História sete vezes secular; a nossa História religiosa, artística, jurídica e literária.


 


As qualidades próprias (o carácter) fazem a Raça, com dissemos; e esta, por sua vez, dá origem à Pátria.


 


 


PÁTRIA


 


A ideia de Pátria inclui a de Raça, conforme o significado que demos a esta palavra. Todavia, esta ideia pode sobreviver àquela, na qual se contém a ideia de independência política. A raça polaca sobreviveu à pária polaca.


 


Uma Raça independente, sob o ponto de vista político, é uma Pátria.


 


Há muitos Povos independentes que constituem Reinos, Nações, Impérios, mas não uma Pátria. A Áustria, por exemplo, é uma Administração, conforme lhe chamava Mazzini. Queria ele dizer que lhe faltavam as qualidades próprias que definem uma Raça.


 


Os Estados americanos representam Pátrias ainda em formação. É natural que, sob a influência dos séculos e do meio, comecem a criar e a fixar um certo número de qualidades originais que os tornem verdadeiras Pátrias, no futuro.


 


A Raça portuguesa, antes de ser uma Pátria e mesmo nos primeiros tempos da sua independência, vivia como que latente e diluída nos outros povos da Ibéria. Mas o esboço primitivo definiu-se e a nítida figura apareceu. A Língua e os sentimentos por ela traduzidos cristalizaram, destacando-se, em alto-relevo, da confusão originária.


 


E Portugal é uma Raça, constituindo uma Pátria, porque, adquirindo uma Língua própria, uma História, uma Arte, uma Literatura, também adquiriu a sua independência política.


 


Portugal, sendo uma Pátria, como tão bem precisa Teixeira de Pascoais, vemos que os acontecimentos políticos passados desde o 25/4 são crimes cometidos pelos estrangeirados contra ela. Como são crimes o desprezo pela nossa História e a desfaçatez com que se usa, sem necessidade, a língua estrangeira em conversas banais. A nossa História e a nossa Língua devem ser protegidas o mais possível.


 


 


Joaquim Reis


 

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