A bem da Nação

SE QUERES CONHECER O VILÃO...

 


 


“Segundo fordes poderoso ou mísero…”


Eis uma máxima que La Fontaine


Coloca em subtítulo adaptável


À sua fábula “O Poderoso e o Miserável


Com que termina outra fábula -


Os animais doentes da peste” -


Na qual, por causa da peste que grassara


Na sua Corte, o Rei Leão reunira


Os vários animais para que se acusassem


Dos seus pecados,


A fim de que o mais pecador


Servisse, como danado,


Para ser sacrificado


A Júpiter, e este assim amansasse


E da peste os libertasse.


Todos foram declarando, com mais ou menos razão,


Os seus pecados, a começar pelo Rei Leão


Que a Raposa logo defendeu


Com a astúcia habitual


Que os mais animais imediatamente,


- O Tigre, o Urso, o Chacal -


Apoiaram com subserviência animal


Que é, afinal,


A de toda a gente.


Surgiu o Burro que, inocentemente,


Referiu a erva que roera,


Por estar muito esfomeado


Num prado que pertencia


A uma Confraria


De frades. Grande pecado!


E foi este o sacrificado,


O pobre do Burro enfezado.


E termina deste modo


A tal fábula do burro paspalhão:


“Segundo fordes poderoso ou mísero,


Os julgamentos da corte de vós farão


Ou branco ou preto”.


 


Muito certo.


É claro que não se trata


De nenhuma afirmação racista


Esta do branco e do preto,


Mas pura metáfora simplista


Do tratamento diverso


Social


Entre a gente animal.


Mas vejamos então


A fábula “O Poderoso e o Miserável


Que tem como introdução


A frase com reticências


Que serve de conclusão


À fábula citada antes,


Mas concluída,


E de diferente moral:


 


«O Poderoso e o Miserável”


“Segundo fordes poderoso ou mísero…


 


… Deste famoso adágio de fábula


Não rebatamos a razão,


Ela será sempre uma boa razão!


Quanto a esta outra fábula,


Foi todavia ao mais forte


Que um fraco venceu desta sorte:


 


Assim, de maneira fortuita


Quando o Senhor vinha de visita


Ao seu povo, um indigente


Diante do seu Senhor se encontrou,


E o olhou ocasionalmente,


Para o qual era proibido olhar.


Ao baixá-lo, e cedo demais erguê-lo


Sobre sua Senhoria,


Logo este afirmaria


Dum modo muito irado:


«Eis que é inesperado!


Diz-me se a loucura teus olhos guia


Para improváveis Deuses?”


Não julgando tão bem falar,


O Vilão responde ao seu Senhor:


“- Santidade, eu sei-me, relativamente a vós,


De bem pequeno poder;


Todavia,


Contemplando dos Céus a extensão,


Receio que vós não igualeis


Nenhuma das suas parcelas, nem sequer


O seu Rei Sol de cuja maravilha                  


Vos enfeitais!»


 


Crime de lesa-majestade?


Sem dúvida… segundo a máxima cimeira;


Mas aqui, para muitas altas cabeças


É verdade bem certeira.»


 


Também Victor Hugo lembraria


A singularidade de tratamento


Com que a Justiça pune os homens


Conforme matam a fome


Da sua miséria ou da sua ambição.


E não há meio de alterar


Tal condição.


 


Mas se queres conhecer o vilão


Põe-lhe a vara na mão,


É o que se diz


Neste nosso país.


E a vara do dinheiro


É poderoso instrumento


Que torna vilão


O homem mais bento.


Vemo-lo a cada passo


Neste nosso mundo crasso.


 


 Berta Brás

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