Com a família a fomentar o comércio, com praia que chegue para os próximos meses, tendo montado a cavalo durante toda a manhã, eis-me a ouvir as Wesendonck Lieder de Wagner (http://www.youtube.com/watch?v=uph27J6FLqo) durante uma radiosa tarde de Sábado setembrino. Mas as canções adúlteras chegaram ao fim e passei-me para as Gurrelieder de Arnold Schönberg (http://www.youtube.com/watch?v=75MqAyETxn0)
Para compensar a germanofilia acústica, dediquei-me à leitura de dois pequenos contos de Eça de Queiroz, “Civilização” e “José Matias”, que há 68 anos me passavam ao lado.
Relativamente a “Civilização” – sobre cujo conteúdo há por certo muito quem disserte – apenas afirmo que é do melhor estilo literário que alguma vez li com aquele intróito absolutamente fantástico «Eu possuo preciosamente um amigo...»; quanto ao conteúdo de “José Matias”, creio que daria um filme muito interessante sobre o estilo de vida em Portugal nos finais do séc. XIX e não resisto a referir que se trata de conto tipicamente queiroziano com personagens ricas, ociosas, cultas e em que os homens se apaixonam por mulheres (e não como na literatura actual pode eventualmente ocorrer...), percorrendo cenários lisboetas reais entre Arroios e a Rua de S. Bento em casas com portas numeradas que me levaram ao final da tarde a procurá-las in loco. E se a Rua de S. Bento é das mais numeradas de Lisboa ultrapassando, nos pares, o 700, logo por azar o 214 não existe pois a numeração actual salta do 212 para o 216. E Eça disfarçou o enredo com uma esquina que o não é e só acertando, talvez, na afirmação de que o apaixonado se escondia num portal escuro e emporcalhado frente a esse prédio em cujo primeiro andar vivia a Elisa dos seus amores platónicos. É que frente ao local a que deveria corresponder o 214 situa-se a ala nascente do Palácio de S. Bento onde alguns «emporcalhados» nos moem o juízo e nos consomem a paciência com desdenhosas maledicências tentando o «tira-te tu para me pôr eu». Bem fez Eça que os ignorou e preferiu os alvos esplendores da radiosa Elisa!
Ao que se segue um jantar com sabores moçambicanos na Costa do Castelo em esplêndido terraço com vista para o Tejo, esse que já não tem as fragatas nem as faluas dos idos queirozianos mas que tem o pôr de Sol mais futurista que se pode imaginar por trás da ponte que o Doutor Salazar mandou erguer lá ao fundo.
E amanhã é Domingo em toda a parte, mesmo em lugares sem estes poentes marítimos que também vejo da minha janela.
Sim, apesar das ameaças com armas químicas lá para as bandas de Palmira, estou de bem com o mundo!
Deo gratias!
Lisboa, Setembro de 2013
