A bem da Nação

Ricardo, quo vadis? Quo imus?

 


O meu filho mais velho é bastante malandro. Pertence à geração que sofreu o embate da descolonização portuguesa, indecisa entre o discurso da demagogia que lhe era imposta para melhor se singrar na vida, e o discurso dos velhos do Restelo que em casa sempre foi o adoptado, dentro dos parâmetros da lealdade pátria, que pai e padrasto defenderam nas terras amadas de África e que ele próprio jurou por cá, quando cumpriu o seu serviço militar. Como acontece com toda a gente, a experiência fê-lo adoptar atitudes de descrença, nele traduzidas num humor de exagero, ora sério ora acriançado, que muitas vezes se manifesta no anedotário que recebe pela internet e me envia, para fazer desmanchar os meus próprios humores bravios ou as minhas crenças ainda em critérios de honestidade, aparentemente desaparecidos, sob o escândalo de uma austeridade aparentemente sem solução.


E aqui está um texto da nossa laracha, que me apresso a reproduzir, pela criatividade que revela.


«Antigo mas... não si se já conhecias mas é interessante...»



DISCURSO ANTES DA POSSE


 


Só os tolos podem crer que  


não lutaremos contra a corrupção.  


Porque, se há algo certo para nós, é que  


a honestidade e a transparência são fundamentais.  


para alcançar os nossos ideais  


Mostraremos que é uma grande estupidez crer que  


as máfias continuarão no governo, como sempre.  


Asseguramos sem dúvida que  


a justiça social não será o alvo da nossa acção.  


Apesar disso, há idiotas que imaginam que  


se possa governar com as manchas da velha política.  


Quando assumirmos o poder, faremos tudo para que  


se termine com a corrupção e as negociatas.  


Não permitiremos de modo nenhum que  


os reformados morram de fome.  


Cumpriremos os nossos propósitos mesmo que  


os recursos económicos do país se esgotem.  


Exerceremos o poder até que  


Compreendam que  


Somos a nova política.


 


DEPOIS DA POSSE: Basta ler o mesmo discurso, de baixo para cima, linha a linha


 


Mostrei à minha filha Paula o texto e ela lembrou um poema de Camões que eu própria já ensinara em tempos, jogo de construção com sentidos opostos, conforme se lesse na vertical– de crítica satírica à dama – ou cada verso das duas primeiras oitavas completado nos correspondentes das duas oitavas seguintes para lhe elogiar as virtudes segundo o modelo de perfeição clássica – de beleza, bondade. pureza e elegância morais:


 


Sois üa dama (1)


das feias do mundo;(2)


de toda a má fama (3)


sois cabo profundo.(4)


A vossa figura (5)


não é para ver; (6)


em vosso poder (7)


não há fermosura. (8) 


 [Vós] fostes dotada (9)


de toda a maldade; (10)


perfeita beldade (11)


de vós é tirada. (12)


Sois muito acabada (13)


de tacha e de glosa: (14)


pois, quanto a fermosa,(15)


em vós não há nada. (16) 


 


De grão merecer (1’)


sois bem apartada;(2’)


andais alongada(3’) do bem parecer. (4’)


Bem claro mostrais (5’)


em vós fealdade; (6’)


não há i maldade (7’)


que não precedais.(8’)
De fresco carão (9’)


vos vejo ausente; (10’)


em vós é presente (11’)


a má condição. (12’)


De ter perfeição (13’)


mui alheia estais (14’)


mui muito alcançais (15’)


de pouca razão.(16’)


 


E assim vamos preenchendo a vida, com graças do passado, com graças do presente, a disfarçar …



  Berta Brás

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