Duas personalidades portuguesas de que o país se deve orgulhar, pela qualidade da sua inteligência crítica e intelectual - o discurso ético da ponderação e a nobreza da isenção partidária, próprios de Francisco Assis, o propósito satírico geralmente saliente, nas lúcidas análises de Vasco Pulido Valente. Não resisto a transcrevê-los a ambos, nesta análise selectiva que ambos praticam no balanço final do ano:
UM ANO, SEIS PERSONAGENS
Esta legislatura não vai durar quatro anos
http://abemdanacao.blogs.sapo.pt/um-ano-seis-personagens-1551560
Francisco Assis
OS MELHORES DO ANO
Vasco Pulido Valente
Público, 26/12/2015
Pedro Passos Coelho – Pelo que fez nestes quatro anos. Foram anos para muita gente de sofrimento e miséria. Mas tudo teria sido pior sem a tranquilidade e constância do primeiro-ministro. Não houve nada que a esquerda não dissesse sobre ele: não houve insulto, nem calúnia, nem mentira que não saísse da sua habitual grosseria e desonestidade. Passos Coelho aguentou tudo e transmitiu ao país, no meio da catástrofe em que o meteu o PS, alguma confiança e algum ânimo. Merece o nosso respeito.
Paulo Portas – Equilibrou a coligação, quando ela começava a deslizar para a incoerência, e conduziu a sua política sem se perturbar com os limites que lhe punha o azedume do PSD e o frenesim da esquerda.
Mariana Mortágua – A inteligência e a sobriedade com que se comportou na comissão de inquérito ao grupo Espírito Santo deu ao parlamento algum prestígio (de que urgentemente precisa) e aos portugueses muito prazer.
José Manuel Fernandes, Rui Ramos, David Dinis – Criaram o primeiro grande jornal online, o “Observador”. Numa altura em que toda a gente fala numa língua que não chega a ser português, é bom saber que ainda aparece quem escreva português e, às vezes mesmo, bom português.
Henrique Medina Carreira – Continua a explicar com uma exemplar clareza a situação do país. Mas não perdeu o humor, nem a rudeza que ajuda a compreender a verdade.
Catarina Martins – Sem nada: sem saber economia ou finanças; sem um pensamento político pertinente e organizado; sem um passado que a impusesse ao público; sem qualquer prestígio fora da agremiação exótica a que pertence, Catarina Martins conseguiu atrair os votos de uma imensa quantidade de portugueses. E, não contente com isto, também ajudou à formação do governo de António Costa. É o símbolo da vitória da insignificância.
Ricardo Araújo Pereira – Finalmente, já ninguém lhe acha graça.
Adolfo Mesquita Nunes – Aos 38 anos presidiu ao maior aumento do turismo em Portugal. Só que não gostou da política. Não se candidatou a uma carreira de ócio como deputado e, quando o governo caiu, voltou alegremente à sua profissão.
OS PIORES DO ANO
Vasco Pulido Valente
Público, 27/12/2015
Cavaco Silva – É triste pensar que este homem dominou 20 anos da democracia, que nós queríamos que mudasse Portugal e o transformasse num país moderno e, até onde possível, próspero. Com um espírito estreito e uma indescritível arrogância, percebeu quase tudo mal, tanto como primeiro-ministro, como Presidente da República. A sua reforma, anunciada para Março, é um peso que a Constituição nos tira de cima.
António Costa – Correu brutalmente com Seguro do PS e depois da derrota de 4 de Outubro formou um governo de extrema-esquerda, que só pode dar mau resultado para os portugueses, para o PS e para ele. Não percebe os limites da penúria a que chegámos, nem os remédios que a podem, com sorte, atenuar. Quando se for embora, vai deixar o país num caos, do qual nada sairá de bom.
Ricardo Salgado – Como conseguiu o responsável pelo banco e pelo Grupo Espírito Santo levar à ruina e ao tribunal uma potência que se julgava inexpugnável? É preciso uma espécie de génio para se conseguir uma proeza destas. Génio e a subserviência da família e da gente que trabalhava com ele. Nós, por uma vez, vimos directamente na comissão da Assembleia da República a falta de carácter e de vergonha dos comparsas de Ricardo Salgado. Bastava isso para se impor à banca uma regulamentação selvagem.
Paula Teixeira da Cruz – Um desastre ambulante e um melancólico pretexto para deixar a Justiça na mesma.
Pilotos da TAP – A greve que fizeram não tem desculpa. Contribuíram para a desgraça da companhia e começaram um suicídio lento, que arrastará consigo centenas de inocentes.
José Rodrigues dos Santos – A cada ano que passa aumenta a sua colecção de graçolas sem graça e de trejeitos que só conseguem enojar ou irritar. Que nos quer ele dizer com a piscadela com que acaba o Telejornal? Que nós somos cúmplices do estado do mundo? Que não nos devemos preocupar com o estado do mundo? Que é melhor partilhar com ele a sobranceria e a vaidade de uma cabeça oca?
José Sócrates – Reapareceu em cena no seu papel de vítima; vítima do Ministério Público, de 30 e tal juízes, de campanhas conduzidas por uma “força oculta”, da direita, do PS e da humanidade. Não percebe que uns meses mais desta vexatória farsa o levarão ao desprezo universal e daqui a pouco nem com uma vara alguém se atreverá a tocar nele.
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O conhecimento humanístico que Vasco Pulido Valente detém o levam a tratar as suas figuras com maior ou menor dimensão crítica, de acordo, naturalmente, com a sua sensibilidade e empatia. É o caso de Cavaco Silva, de quem ninguém se atreve a dizer bem – Francisco Assis abstendo-se, por delicadeza, talvez, Pulido Valente malhando nele com o fervor do repúdio. Atrevendo-me a expor o meu parecer, e apenas com o conhecimento da própria vivência, lembro o ministro que admirei, que ajudou a modernizar o país nas autoestradas que rasgou, com a minha amiga sempre barafustando por ter feito demorar tanto, surpreendentemente, a do Algarve, que traria turismo e lucro. Um homem que parece apático, mas que de repente se apresenta – pelo menos assim o vejo – defensor inquebrantável do seu país, nas palavras de zelo que pronuncia, seguro no seu posto e indiferente aos apupos da multidão que o despreza na sua velhice, só aparentemente inerte e tacanha. É claro que a velhice, sobretudo quando pueril – caso da referência às compras que fez com a mulher num qualquer país europeu – o tornam alvo das chufas desdenhosas dos que no chefe apenas querem admirar o ícone hierático que inspira respeito, não a estátua de pés de barro. Mas Cavaco Silva, parecendo tacanho, sabe bem o que quer e não se deixa vergar pelos apupos dos que intimamente considerará invejosos e impotentes. Para mim Cavaco Silva será sempre um homem que, acima de tudo, respeitou a sua pátria.
Quanto a Passos Coelho, outro abocanhado pelas alarvidades de quem só viu nele o que quis ver, desprezando as contingências da sua actuação, é, para mim, a figura maior do ano que passou.
Só não entendo por que Vasco Pulido Valente, enfiando Catarina Martins nos melhores, o faz pela negativa – “símbolo da vitória da insignificância”. O mesmo relativamente a Ricardo Araújo Pereira, considerando que “Já ninguém lhe acha graça”. Por essa forma, os que considera os piores, como José Sócrates, mestre na arte da vitimização e parolice, deveriam ser postos entre os melhores. Catarina Martins lembra-me um fogo fátuo, um meteoro que risca o céu e facilmente se desintegra, por falta de luz própria.
Mas posso estar enganada, que a parolice nacional ainda nos faz hoje rastejar em Fátima.
