A bem da Nação

RELATIVIZANDO

 


 


Numa história de Lebres e de Rãs,


Conta Esopo


Que aquelas, medrosas


E envergonhadas com a sua imagem,


Decidiram suicidar-se num charco,


Atirando-se dum penhasco


Mas umas Rãs que as pressentiram,


De pânico mergulharam


Quando aquelas avistaram,


O que impediu as lebres


De se suicidarem,


Por verem que havia no mundo,


Tão profundo,


Gente de maior cobardia


Do que a que a gente leporina se atribuía.


Isso, mais ou menos escreveu Esopo


Objectivamente,


Propondo ainda uma moral


Visando os homens,


Que se consolam do próprio mal,


Com o mal alheio,


O que é extremamente feio.


Ora La Fontaine recriou a fábula


Com uma história de grande graciosidade


Em que a subjectividade emparelha,


A todo o momento,


Com a leveza, a elegância


Do descritivo de movimento,


De ironia


E de rigor do pensamento.


Eis o que La Fontaine escreveu


Como do grego Esopo traduziu:


 


x


A lebre e as rãs


 


Uma lebre na sua toca pensava


(Pois que outra coisa resta a fazer


Numa toca senão pensar?).


Num profundo torpor a lebre mergulhava:


Este animal é triste, e o medo o rói a valer.


“As gentes de um natural medroso


São muito infelizes”, dizia ela,


Afinal, tão ágil e bela:


“Não conseguem comer coisa que lhes preste.


Nunca há um puro prazer; sempre assaltos diversos.


E deslizes.


Eis como eu vivo. Este maldito medo


Impede-me de dormir, ou só com os olhos abertos


E a orelha em riste.


“Corrija-se”, dirá qualquer cérebro sensato


Habituado ao teste.


“E o medo pode-se corrigir?


Ou inflectir?


Julgo mesmo que, em boa-fé,


Os homens têm tanto medo como eu.”


Assim reflectia a nossa Lebre


Na sua febre -


- Não de Sábado à noite,


Que ainda não havia,


Mas de não saber como se afoite.


E entretanto,


Ela permanecia


Vigilante,


Sempre inquieta, temerosa;


Um sopro, uma sombra, um nada


Tudo febre lhe provocava.


O melancólico animal,


Sonhando nesta matéria


Da sua grande miséria,


Ouve um leve ruído: bastou este sinal


Para p’rà sua toca fugir.


Mas foi andar à beira de um charco:


Umas Rãs logo se puseram a saltar para as ondas,


A entrar para as suas profundas grutas.


“Oh! Disse ela, eu causo o mesmo medo, afinal


Que a mim, outros me fazem sentir!


A minha presença assusta qualquer animal!


Eu crio alarme no acampamento!


Donde me vem tanta valentia


Santíssimo Sacramento?


O quê!? Eu faço tremer os animais de medo!


Serei eu um potentado de guerra?


Não há, vejo bem, nenhum poltrão na Terra


Que não possa achar outro mais poltrão que esse.”


 


Foi esta a conclusão da moral


De um fabulista racionalista


Que jogou com os infinitos


Das enumerações,


Quer se trate da aritmética


Quer da filosofia,


Da sociologia


Ou da ética


Ou mesmo da astronomia.


E, tal como ele,


Também Einstein relativizou.


Ninguém, pois, se pode assim


Considerar superior


E nem mesmo inferior


A outro qualquer,


Que não se encontre logo


Um de categoria ainda maior


Quer seja para cima quer seja para baixo.


Com baixa autoestima ou com penacho.


 


 Berta Brás

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