A bem da Nação

«REFLEXÃO SOBRE INTERDISCIPLINARIDADE E LITERATURA» - 3

 


 


Se a Literatura filia em correntes filosóficas, não é menos importante o contributo da Música para a compreensão do fenómeno literário, através dos recursos ligados à exploração do significante, especialmente a poesia que o Simbolismo identificará mesmo com a própria música, pela criação de uma arte de sugestão de estados de alma, mais do que expressão articulada de um pensamento coerente, através de um discurso essencialmente aliterativo, de repetição de sons.


 


De resto, tal como as demais Artes, também a Música sofre evolução concordante com os valores ideológicos dos períodos literários sucessivos, desde a música instrumental da Idade Média, intimamente ligada com a poesia quer profana quer religiosa, à música polifónica renascentista, à espectaculosidade da ópera e do ballet da época barroca, ao aperfeiçoamento da música instrumental e formação da orquestral com a criação sinfonia, do concerto, da música de câmara no século XVIII, em que se salientaram tantos virtuoses, à música liberta das regras clássicas e expressão de sentimentos da época romântica, à música verista concomitante com a escola realista, às variedades musicais do século xx, onde não faltam experiências no campo da música atonal, com a música concreta e a electrónica, analógicas da poesia concretista, que associa signo e forma, numa tentativa de recriar uma realidade mais próxima e mais ampla de ambiguidade.


 


Por esse facto, parece-nos necessária uma reestruturação pedagógica, no sentido da inclusão dessa disciplina ao longo do curriculum escolar, com vista a uma complementaridade cultural, indispensável na formação humanista do aluno, além de que é óbvio também, como nas demais disciplinas, o contributo linguístico do  campo musical, com expressões como “pôr a tónica”, “pôr o acento” ”sonante”, “tonalidade”, “timbre”, “contraponto”, ou a própria exploração imagística de que é exemplo típico, o soneto barroco “Ao cavalo do conde de Sabugal que fazia grandes curvetas”, de autor anónimo:


 


Galhardo bruto, teu bizarro alento
Musica é nova com que aos olhos cantas,
Pois na harmonia de cadências tantas
É clave o freio, é solfa o movimento.

Ao compasso da rédea, ao instrumento
Do chão que tocas, quando a vista encantas,
Já baixas grave, e agudo já levantas,
Onde o pisar é som e o andar concento.

Cantam teus pés, e teu meneio pronto,
Nas fugas, não nas cláusulas medido,
Mil consonâncias forma em cada ponto.

Pois em solfas airosas suspendido,
Ergues em cada quadro um contraponto,
Fazes em cada passo um sustenido.


 


Também o Desenho, as Artes Plásticas, são complementares do ensino da Literatura, quer através do conhecimento dos valores técnicos das escolas de pintura, escultura ou arquitectura, quer pela importância que o visualismo toma em determinadas escolas literárias, mais especificamente na realista e na escola parnasiana, com o seu vocabulário de cor, próprio da criação sensorialista, ou mesmo a identificação com a pintura, como exprime frequentemente Cesário Verde:


 



Pinto quadros por letras, por sinais


Tão luminosos como os do Levante.


 


Como não reconhecer a necessidade de um estudo paralelo entre a Arte e a Literatura, quer no sentido de religiosidade do estilo gótico, ou no equilíbrio harmónico das linhas renascentistas, ou no dinamismo e angústia do transcendente dos excessos ornamentais barrocos, ou no transbordar de emoções da arte romântica, ou na luminosidade e realismo dos quadros impressionistas?


 


Se estas escolas dão relevo à forma, as escolas modernistas, como por exemplo o Cubismo, pretenderão recriar a ilusão do movimento e do fragmentário, tão expressivo neste século XX, pela multiplicidade de planos e ângulos nos quais as realidades dos mundos exterior e interior estão imbricados Terão adeptos na Literatura, nomeadamente no Sensacionismo e Interseccionismo dos poetas da Orpheu, al como o mundo dos sonhos ou do subconsciente da escola surrealista terá reflexos na pintura do mesmo nome, ou o Expressionismo se aparentará intimamente com a literatura de intervenção e revolta neo-realista. Por outro lado, também a língua se enriqueceu com o contributo das Artes Plásticas através de termos como “perfil” “caricatura”, “projecção”, “aguarela”, “escultural”, usados conotativamente.


 


Identidade com a Literatura e a Educação Física, vemo-la na expressão rítmica dos gestos e no desenvolvimento harmónico do corpo, dentro do conceito clássico do “corpus sanus”, além de que o estudo evolutivo das escolas de dança traria achegas valiosas ao estudo literário.


 


E a Matemática, e a Geometria, e a Física, com a sua terminologia de tão vasta aplicação linguística, como por exemplo “linear”, “linearidade”, “pontual”, “símbolo”, “operacional”, “hipérbole”, “limite”, “técnica circular”, “dinâmica”, “óptica”…., sem esquecer o uso poético que delas faz, por exemplo, Cesário Verde, ao definir os seus versos como “desenho de compasso e esquadro”, dado o seu carácter geométrico, rigoroso, exacto de observação e técnica analítica.


 


E a Geografia de Crónicas e relatos de viagens e aventuras exóticas, caso da “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto, e a Biologia, a Astronomia, etc., que inspiraram poetas como Gedeão, no uso de uma terminologia especializada de não pequeno valor poético, apesar da especificidade do termo denotativo. Aliás, tal especificidade encontramo-la ao longo da história literária, no concretismo das imagens, desde a “Fénix Renascida” a Tolentino, Cesário, Pessoa, Álvaro de Campos, Miguel Torga…


 


Também a História, não só transmite conhecimentos de épocas passadas, em íntima relação com os movimentos culturais, mas proporciona a identificação de mitos, contribuindo ainda para a formação de narrativas históricas com valor literário e para a criação da epopeia, onde não só a história mas um grande número de ciências perpassa.


 


Escusado será falarmos no contributo das línguas vivas, com o estudo comparativo no campo gramatical, linguístico e literário, ou das línguas clássicas, para o estudo aprofundado e etimológico da língua pátria, além de mergulhar no conhecimento literário dos clássicos, de tão extrema importância para a formação humanista.


 


Pressionados por horários inflexíveis e tarefas pesadas de realização e correcção de testes e outras actividades colaterais, isolamo-nos no nosso mundo de trabalho e premências, sem nos darmos conta de que uma interacção entre colegas de grupos diferentes poderia em parte enriquecer-nos mutuamente, suprindo dúvidas e respondendo a carências que procuramos as mais das vezes resolver isoladamente, com mais ou menos aplicação, maior ou menor interesse de actualização. Essa interacção. Resultaria, sem dúvida, em benefício do ensino relativamente à formação do estudante.


 


Este pequeno trabalho pretende apelar para uma junção de esforços num sentido, não só de enriquecimento mútuo pelo apontar de informações e soluções, como no objectivo de criar uma harmonia e unidade num ensino naturalmente diversificado pela especialização de matérias, mas que uma conjugação de valores interdisciplinares poderá ajudar a unificar e a enriquecer como meio, parcial embora, de obstar a uma progressiva degradação do nosso ensino, que originou a frequente análise do problema, subordinada ao tema do insucesso escolar no nosso país.


 


FIM


 


 Berta Brás

0