O século XX, ao caracterizar-se por uma cada vez maior desagregação trazida pela decomposição do átomo e da matéria, com reflexo sobre uma evolução tecnológica e científica cada vez mais alucinantes, sofrerá a influência de correntes de pensamento variadíssimas que naturalmente imprimirão a sua marca sobre a Literatura.
No início do século o Primeiro Modernismo ou da Geração da Revista “Orpheu” definir-se-á por um propósito desestabilizador de destruição dos valores tradicionais, ligados às correntes simbolista e saudosista, e de ataque ao conservadorismo burguês, aliados a um espírito inovador que, na esteira do futurista Marinetti, apregoa a máquina, o dinamismo, a velocidade, a simultaneidade, o progresso, o feio, num propósito dessacralizador da Arte.
O Surrealismo, surgido ainda no primeiro quartel do século, com André Breton, impregna-se dos conceitos da psicanálise, ao explorar literariamente o mundo fantasmagórico e incoerente do subconsciente.
O Segundo Modernismo, que vigorou em Portugal através da Geração da “Presença” de que José Régio foi o expoente maior, além do mérito de destacar os poetas da “Orpheu”, nomeadamente Pessoa, retoma uma atitude mais tranquila de contemplação narcísica desligada do mundo exterior, e de inquietação metafísica.
Suceder-lhe-á em breve, e em consequência das graves convulsões sociais do segundo quartel do século XX, a escola neo-realista, apoiada na ideologia marxista, tendente a intervir na solução social, ao defender uma tomada de consciência das classes trabalhadoras exploradas.
A esta literatura de empenhamento social, opor-se-á um literatura de cunho existencialista, de que Vergílio Ferreira, que se iniciou como neo-realista, será talvez o escritor mais convicto, sempre maleável a novas experiências literárias, como demonstrará posteriormente com a técnica do “novo romance”, apoiado este em técnicas narrativas onde não cabem a ordem comum nem os esquemas tradicionais subentendendo acção, personagens, elementos espácio-temporais, despidos uns e outros de valor efectivo, em benefício de uma multiplicação de valores diversos que passariam despercebidos na narrativa tradicional
Também o novo teatro ou “antiteatro”, no mesmo desígnio de subversão relativamente aos valores literários tradicionais, explorará a temática do absurdo, em que as personagens se comportam como “robots” grotescos, sem densidade psicológica, a acção inexistente ou circular, repetitiva, os elementos espaciotemporais destituídos de valor real, onde sobressaem figuras desarticuladas, sem vida interior, traduzindo, num universo de “non-sens”, o irrisório e cruel do destino humano.
A par da ideologia presidindo à expressão da obra literária, diversifica-se esta numa temática mais ou menos variada, de cariz as mais das vezes filosófico também. É por demais conhecido, por exemplo, o tema do devir, da mudança, repousando na fórmula heraclitiana – apesar da oposição dos eleatas, adeptos do estatismo, da unicidade – do homem banhando-se no rio, excluindo qualquer sentido de paragem ou repetição, e desde sempre poetas e prosadores exploraram o conceito:
- Num sentido mais objectivo, do desgaste físico que o tempo traz e a consequente instância epicurista ao gozo, formalizada no “carpe diem” horaciano, percorremo-lo desde os poetas clássicos, a Ricardo Reis, a António Gedeão…
- Num sentido mais pessimista ainda do fluir irreversível do tempo para a morte, encontramo-lo na angústia burilada e sintética dos poetas barrocos, na mais eloquente dos escritores românticos, em Cesário, António Nobre, Pessoa, que tão agudamente define o sentido do absurdo e do paradoxo, num existencialismo que reencontraremos nos escritores existencialistas do após-guerra, embebidos de Sartre, Camus e outros.
- Num sentido mais simbólico de um hegelianismo “avant la lettre”, a evolução espiritual da Alma no Auto do mesmo nome de Gil Vicente, segundo o conceito de tese, antítese e síntese, identificada a primeira com o Anjo e a segunda com o Diabo, sendo á Alma a síntese da luta antitética, síntese que inicialmente se processa num sentido descendente, de degradação materialista com a vitória do Diabo, e em seguida ascendente, de eleição espiritual, com a vitória do Anjo e o triunfo da Igreja.
O mesmo tema do devir, da mudança, que o romance português, desde a “Menina e Moça” a Garrett, aos romancistas contemporâneos, explora num sentido de inquietação espiritual ou psicológica, resultante de instabilidade temperamental, ou num sentido de continuidade temporal, apoiar-se-á, neste século XX, na corrente bergsoniana do fluir da memória e da consciência, de que é exemplo típico o romance de Agustina Bessa Luís, “A Sibila”, marco diferenciador de uma nova era literária, pela exploração alucinante de uma imagística e uma ironia riquíssimas, aliadas a um processo narrativo que, ao invés da linearidade, conjugada com frequentes analepses ou retrospectivas do romance estandardizado e pragmático do século XIX, feito para um público convencional, exigente de coerência e segurança, utiliza, pelo contrário, uma técnica exigente de constantes apelos e fugas, à maneira da rosácea gótica, em que as linhas de acção se movem num constante fluir e refluir de elementos trazidos por um processo evocativo, saltando constantemente no tempo e no espaço sem, todavia, quebrar a unidade e a progressão narrativas.
(continua)
