Ou
DA MILITÂNCIA E DA MÂNDRIA
Do dicionário, extrai-se que radical tem o significado geral de «drástico» e que em política significa «aquele que quer reformas/alterações/mudanças completas» e que permissivo significa «indulgente» e/ou «ética e moralmente relaxado».
* * *
No Estado liberal, ocidental, a liberdade é conceito unicitário e integra facetas essenciais como sejam a liberdade de opinião e a liberdade e de iniciativa. Tudo condicionado pelo princípio de que a liberdade de cada um cessa onde começa a liberdade do próximo, a começar pelo valor supremo que é a vida. As condicionantes à liberdade têm a ver com o respeito pela propriedade, pelo ambiente e pela fiscalidade. Foi a partir deste conjunto de ideias maiores que nasceram diversos ideais de bem-comum, aqueles a que actualmente chamamos de Socialismo Democrático, Social Democracia, Democracia Cristã (não confessional) e Liberalismo (propriamente dito). Desta macroestrutura excluo os movimentos políticos de base étnico-regionais pois que podem assumir qualquer tipo de projecto acima referido e excluo o Conservadorismo britânico (misto de Democracia Cristã e de Liberalismo)
E o Trabalhismo britânico (misto de Socialismo Democrático e de Social Democracia). Europa que é o berço das políticas de essência democrática.
Contudo, a prática inquestionável da liberdade permite a instalação de forças que, utilizando a liberdade instituída, preconizam modelos sociais em que essa mesma liberdade não existe. São modelos de génese autocrática que não permitem a liberdade de opinião nem a propriedade e não provaram até hoje qualquer respeito pelo ambiente. À radical militância totalitária, a democracia liberal responde com permissividade na esperança de que, nas urnas, as propostas democraticamente absurdas chumbem rotundamente. O pior é se não o são rotundamente… Mas a luta é cansativa e os instalados no conforto do bem-estar padecem da mândria.
Confortavelmente instalada no progresso material que a democracia lhe tem proporcionado desde o final da II Guerra Mundial, a burguesia ocidental não tem encontrado tempo para ver o que se passa à sua volta. E o que é?
- Um paternalista Estado social super protector que desincentiva o desenrascanço dos menos habilitados que assim se entregam ao ócio;
- Um «neo-ocidentalismo» em que preponderam os direitos e escasseiam os deveres cívicos à mistura com uma tendência amoral do pós-modernismo, uma inequívoca afirmação hedonista e a ambição imediatista do «tudo JÁ!»,…
… fazem do moderno europeu (sobretudo) um ser a quem tudo é devido. Daqui à mândria dista um infinitésimo. Tudo agravado quando esse ocidental o é ao abrigo do Direito positivo, mas que, no plano cultural, se encontra vinculado a padrões forjados alhures. Intimamente desenraizados, entregam-se à reivindicação pela reivindicação, fazem das «poubelles flammentes» uma barricada e esperam que os tradicionalistas os temam e se agachem. E estes, permissivos, esperam pela ronda eleitoral seguinte para dizerem que o caminho chegou ao fim.
Que caminho?
O da mândria, dos compadrios na gestão da «coisa» geral, da «liberté à outrance». E então, teremos que ser nós, novamente, a desentupir esgotos, a semear batatas, a deitarmo-nos cedo e a levantarmo-nos antes do Sol deixando as pranchas de surf arrumadas até ao fim de semana seguinte.
… era tão bom viver «à pala» do subsídio…
Outubro de 2023
Henrique Salles da Fonseca