A bem da Nação

PROJECTO A CAMINHO DA DERROTA

 


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A presidente Dilma começou seu governo, em 2011, aparen­tando relativa independência frente ao seu criador, o ex-presidente Lula. Disse que daria à sua ges­tão um perfil administrativo e que não transigiria com a corrupção. Representava à época o figurino de gerentona e faxineira. Era tudo uma farsa, mera en­cenação para consumo dos ingénuos— e não faltaram os que acreditaram que a criatura era não só diferente do criador, como até, se fosse preciso, romperia po­liticamente com ele. Em quatro anos deixou um país com crescimento zero, um governo paralisado e marcado por escândalos de corrupção.


 


Agora o figurino que está tentando vestir é o da presidente que deseja dia­logar com os partidos e a sociedade. Mais uma farsa. Todo mundo sabe que Dilma não gosta de política. Nunca gos­tou. Na juventude transformou oposi­ção à ditadura em confronto militar — com trágico resultado. Quando chefiou a Casa Civil do presidente Lula foi elogi­ada pelo estilo de durona. Era a mãe do PAC, uma tocadora de obras. A coorde­nação política governamental era tarefa do próprio Lula. Quando assumiu a Presidência, Dilma fez questão de de­monstrar diversas vezes o absoluto de­sinteresse — até mais, enfado — pelas tarefas políticas. Ela não gosta de ouvir.


Decide por vontade própria.


 


No discurso de comemoração da vi­tória, a presidente já deu sinais de como pretende governar nos próximos quatro anos. E insistiu na proposta de reforma política petista que, entre outras coisas, despreza o papel constitucional do Congresso. O governo elabora as mu­danças e busca, via plebiscito, o apoio popular.


Para o PT, a negociação só in­teressa quando os opositores já entram derrotados e têm de aceitar as imposi­ções petistas.


 


Dilma liderou a campanha eleitoral mais suja da história. No primeiro tur­no, usou da mentira para triturar a can­didatura de Marina Silva. Guardou para a fase final da campanha os ataques à honra de Aécio Neves. E tudo sem qual­quer problema de consciência. Assim como Lula, Dilma passou a ter como princípio não ter princípio. O impor­tante era ganhar. Quem fez o que ela fez na campanha tem condições morais de dialogar com a oposição?


 


Dificilmente a reforma política — ou qualquer outra reforma proposta pelo governo — vai ocupar espaço na agen­da política. O escândalo do petrolão é de tal monta que poderá ter um (inicial­mente) efeito destrutivo e saneador (se as apurações forem até às últimas con­sequências). O encaminhamento das investigações comandadas pelo juiz Sérgio Moro já desnudou que o assalto dos marginais do poder à Petrobrás é o maior caso de corrupção da História do Brasil. E vai atingir os três poderes da República, chegando até, segundo depoimento do doleiro Alberto Youssef, ao Palácio do Planalto.


 


A oposição acabou sendo arrastada a exercer o seu papel pelo eleitorado. A crise de identidade foi resolvida ainda durante a campanha eleitoral. Diferen­temente das duas últimas eleições pre­sidenciais, desta vez, tivemos uma cam­panha mais politizada e com participa­ção popular. Fracassou a interpretação de que as manifestações de Junho de 2013 tinham sepultado a "velha políti­ca" Pelo contrário, basta recordar as dis­cussões nas redes sociais, o acompa­nhamento de toda a campanha, a exce­lente audiência dos debates televisivos, principalmente no segundo turno, e a permanência do interesse pela política após o 26 de Outubro.


 


O cenário económico é péssimo. Nem o doutor Pangloss diria que as coisas vão bem. O quadriénio Dilma conseguiu desorganizar as contas pú­blicas, estourar a meta de inflação, colocar em risco a saúde das empre­sas e dos bancos estatais e paralisar a economia do país. E qualquer proces­so de negociação política é muito mais difícil nessa Situação, pois o go­verno teria de ceder. E ceder faz parte da política, e Dilma odeia a política.


 


Na actual conjuntura aceitar o ace­no do governo é jogar na lata de lixo 50 milhões de votos. De votos opo­sicionistas. De eleitores que estão indignados com o — usando a ex­pressão do ministro Celso de Mello citada no julgamento do mensalão — projecto criminoso de poder petista. Não há desejo sincero de diá­logo. As palavras de Dilma não correspondem aos fatos. O que dizer de uma presidente que demonizava a adversária imputando a pecha de defensora dos banqueiros e — dias após à eleição — aumenta a taxa de juros e convida um banqueiro para o Ministério da Fazenda? É esperte­za ou falta de carácter?


 


O PT venceu a eleição presidencial, mas está longe de caminhar para ter o controle dos três poderes — sonho acalentado pelo partido. Perdeu 20% das cadeiras na Câmara dos Deputa­dos e, no Senado, manteve o mesmo número de assentos.


Tudo indica que não terá a presidência de nenhuma das duas Casas no próximo biénio. E a melhoria qualitativa da bancada opo­sicionista deve criar situações embara­çosas para o governo — e não faltam temas para explorar. Por outro lado, a composição do Executivo federal terá de ser ainda mais partilhada com os partidos que dão sustentação ao gover­no, enfraquecendo o projecto petista. E, se for aprovada a PEC da bengala ain­da este ano, a presidente Dilma perde­rá a oportunidade de nomear, devido à expulsória, cinco novos ministros para o STF, acabando com o sonho petista — e verdadeiro pesadelo nacional — de transformar aquela Corte em um puxadinho do Palácio do Planalto.


 


Já estamos em 2015, um ano de 14 meses. Ano agitado, o que é bom para a democracia. E tudo que é bom para a democracia é ruim para o PT. Vamos ter muitas surpresas. O projecto autoritário petista caminha para a derrota política: são os paradoxos da História.


 


4/10/2014


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MARCO ANTÓNIO VILLA


Historiador


 

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