O Miradouro das Flores situa-se no extremo oeste da Ilha do Porto Santo e não tem uma única flor. Talvez seja por essa bitola de congruência que na Wikipédia se diz que a ilha é «extremamente plana». Sim, é plana no espaço a duas dimensões em que a própria Wikipédia se nos apresenta na Internet. O mesmo se diga do Everest.
De carro, não me custou nada percorrer as «planícies» que do litoral nos levaram às serras exteriores e interiores e felizmente, a guia-chauffeuse fez-me a vontade e não aproximou o jeep dos abismos. Que me desculpe o «wikipedeiro» pela minha vertigem perante as tais «planícies». E quem zela pela verdade naquela enciclopédia, a livre (liberdade de enganar os incautos?), também pela certa nunca foi a Porto Santo.
Naturalmente seca, abandonou há alguns anos os poços que a serviram desde que em 1418 foi descoberta por João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira (um ano antes de os mesmos terem descoberto a ilha da Madeira que dista apenas 70 kms) e vive da água dessalinizada. Leigo na matéria, não quero contudo deixar de manifestar um louvor muito especial à qualidade da água que corre nas torneiras de que me servi.
Diz-se que em tempos se produzia cereal. Hoje, nada ou quase nada se produz. Hortas minúsculas para auto abastecimento mas a guia-chauffeuse informou que os excedentes são comercializados «numas bancas lá em baixo». Presumo que em Vila Baleira, a sede de Concelho a que eles chamam cidade, mas não vi nada que se pudesse assemelhar a um mercado municipal. E também não vi nada que em boa verdade se pudesse assemelhar a uma cidade. Em compensação, muitas vezes nos referiram o supermercado – cujo nome não cito propositadamente para que alguém relacionado com a Fundação Francisco Manuel dos Santos não me venha pedir direitos de citação – e esse, sim, é um ponto central na vida da população.
Com excepção dos tais excedentes das minúsculas hortas e de algum peixe pescado pela pequena frota local (não vi mais que 3 ou 4 traineiras), tudo é trazido de fora da ilha. Logo por acaso, o «peixe» que comi era quase todo forasteiro pois que se tratava de lulas e polvo[1] que não existem naquelas águas. Excepção para uma refeição de um magnífico peixe-espada que, esse sim, é local; e esse, sim, é peixe.
A economia local assenta actualmente no turismo e, mais concretamente, na praia de 9 kms de areia muito boa e que se diz ter propriedades terapêuticas contra males dos ossos e articulações. Parece que tem muito estrôncio, anti inflamatório natural. Não senti quaisquer melhoras porque simplesmente não padeço desse tipo de maleitas mas um dia que me achaque pelas bandas articulares ou que o esqueleto se entorte, já sei que tenho que ir estronciar-me para Porto Santo. O hotel em que ficámos, o Hotel Porto Santo, tem um SPA de cinco estrelas em que o tratamento das areias é compactado para caber na estadia de uma semana, o período de «Santo Avião» da TAP.
Portanto, nós, os turistas, vamos para Porto Santo para irmos à praia. E se o tempo está frio e sem Sol? Bem, isso fica para a próxima crónica. Até logo.
Maio de 2015
Henrique Salles da Fonseca
[1] - Tanto a lula como o polvo são moluscos cefalópodes, não são peixes.


