DO PRODIGIOSO FANTÁSTICO
Os supermercados são os palácios dos pobres.
Não são só os azarentos e os mal alojados, os
que ao longo das gerações foram reduzindo os
gastos da imaginação, que frequentam e, de
certo modo, vivem o supermercado, as chamadas
grandes superfícies.
Agustina Bessa-Luís, in “Antes do Degelo'”
À memória da Dona Vitorina, minha Professora da Escola Primária.
Passeio entre sítios e blogs em viagem virtual numa tentativa de encontrar a informação, despejada em milhares de textos, que emergem ao segundo no ecrã. É a sublimação. Sublimação de quê? Não sei. Sinto-me sublime, por estar mais ilustrado. Sinto que passei do estado sólido ao estado gasoso e que flutuo. Inicio um voo cuja deslocação provoca um zumbido parecido com o do moscardo zzzzzzz...zzzzzzzz...zzzzzzzzz. Lembro-me do poderoso Rimsky Korsakov. E, num planar rasante, atravesso as sombras de um espaço mal iluminado e culmino em nova incursão internáutica no YouTube, para cair no fabuloso Apache dos Shadows.
O voo é baixo, mas, o meu sonho anda nas alturas e ao meu lado passam, em tela transparente, cenas da minha infância e recordo a escola primária. Vejo a Dona Vitorina, a minha professora até à quarta classe, a sorrir-me, (também levava com a palmatória de vez em quando...), e a criançada amiga a saltar e a correr ao meu lado. Sinto a pancada na perna (fui atropelado com oito anos) e vejo-me num bloco operatório do Hospital de São José. Estive um mês na enfermaria e outro na minha cama. A Dona Vitorina todas as tardes me entrava quarto dentro, depois das aulas, para me ensinar, preocupada com o exame da terceira classe que se aproximava. Fui fazer o exame da terceira classe de maca, transportado pelos bombeiros. A maca ficou no meio da sala e não fui ao quadro. Com a perna engessada...tive de fazer as contas de cabeça.
Tornei-me na estrela do dia, entre a rapaziada. E o voo continua, ao lado da tela invisível e eu presencio-me a ver o Summer Holidays do Cliff Richard.
Veio o Liceu. Tive uma paixoneta assanhada pela Brigitte Bardot e fui vê-la ao Cinema Monumental, com colegas de turma que hoje vejo nos telejornais ou ouço nas rádios.
O voo acabou e o sonho também... subitamente. Voltei à verdade do silêncio que me rodeia. Caíram-me as asas e tudo voltou à semi-penumbra da sala donde vos escrevo. Tenho saudades do meu passado, da minha infância e da minha juventude e deixo-vos com este Soneto que me apeteceu escrever, porque o silêncio da noite e o recolhimento, isolaram-me da dura realidade que se vive, hoje, no meu País e neste mundo global onde a Palavra chega até nós, através de ecrãs iluminados. O Silêncio, o Recolhimento, a Saudade inspiraram-me:
O vento frio bate na janela.
E ouço-a, tremendo, a gemer.
A Luz invade-me, qual sentinela,
Para, em alerta, eu perceber.
Percebendo que os que são amados,
De quem Jesus fala nos Evangelhos,
As Crianças e os Pobres já Velhos,
São, no nosso tempo, abandonados.
São, em nome de um deus material,
Sacrificados a bem do progresso,
A bem do investimento cruel.
E eu, materialist' e venal,
"sonhador”, impotente me confesso
Não deixar de ser homem de papel.
Este texto, que pretende ser prosa poética, no lugar do prodigioso fantástico da minha imaginação, adornado com um Soneto, não é mais do que esta, (a minha imaginação), que luta por encontrar respostas. Imaginação que encontro, de quando em vez, na esquina do meu comodismo. O Soneto é a expressão da minha revolta por não poder fazer mais nada, para que as Crianças – a quem vai ser atribuído um número fiscal - e os Velhos do meus País, sejam poupados à crise provocada por incompetentes que não souberam acautelar a ganância insensível e descontrolada...
Luís Santiago