A bem da Nação

PORTUGUESES QUASE ESQUECIDOS – 5

 


 


 


Chamava-se Alexandre Moreira Aranha Furtado de Mendonça, nasceu no Concelho de Penafiel em 1858 (27 de Abril) no seio de família abastada; fez os estudos primários e secundários no Colégio de Campolide, em Lisboa e rumou a Coimbra onde estudou Filosofia e Teologia; entrou para a Companhia de Jesus em 1880 onde seguiu a formação normal de um jesuíta.


 


Devidamente ordenado, foi-lhe indicada a ida para a Missão da Zambézia, em Moçambique, onde a missionação se revelava muito difícil não só por causa da pressão muçulmana mas sobretudo – veio a própria Companhia de Jesus a constatar – devido aos métodos de ensino ali seguidos sem qualquer pedagogia devidamente adaptada às culturas locais.


 


Nomeado Superior Geral da Missão por afastamento prematuro do seu antecessor, dedicou-se o Padre Alexandre Moreira (nome por que ficou conhecido) ao estudo das culturas locais a ponto de aprender a falar o Echuabo de que elaborou a respectiva gramática em paralelo com um dicionário. Assim foi que o catecismo passou a ser ministrado nessa língua em todas as redondezas de Quelimane e as conversões aumentaram substancialmente.


 



 


Assim como se dedicara afanosamente a combater a escravatura que ainda se praticava por aqueles sertões isolados (sem que alguns missionários de diversas Ordens pudessem dessa prática lavar as respectivas mãos), o P. Alexandre acolhia com toda a hospitalidade os britânicos que iam à Chupanga em romagem ao túmulo de Mary Livingstone, mulher do missionário anglicano David Livingstone, que ali falecera (de malária) em 1862 com apenas 41 anos de idade ficando sepultada junto a um embondeiro onde já se encontrava a campa de um oficial britânico (Kirkpatrick) falecido em 1826. Eis como o Padre Alexandre criou alguns anticorpos junto dos que se viram prejudicados com o fim efectivo da escravatura e com a prática verdadeiramente ecuménica «avant la lettre» para com os anglicanos.


 


Apesar do grande afecto que as populações apoiadas pela Missão do Zambeze manifestavam ao Padre Alexandre, a República implantou-se entretanto e a Companhia de Jesus foi novamente expulsa de Portugal e respectivas Colónias. Depois de moroso processo de substituição dos jesuítas por missionários de outras congregações, o P. Alexandre Moreira saiu da Chupanga em Abril de 1914 rumo ao Chinde onde embarcaram para a Europa, via Aden, no navio «Gertrud Weissmann». Ao passarem em Mombaça, já o P. Moreira se começou a sentir mal dos diabetes e o médico de bordo, ao perceber que as melhoras não se faziam sentir, determinou que devia desembarcar em Suez. Não chegou lá! No dia 29 de Abril, pelas 15 horas, faleceu depois de ter recebido os sacramentos administrados por outro jesuíta, o P. Dupeyron. Às 18,30 horas desse mesmo dia foi lançado ao Mar Vermelho. Conta o P. Dupeyron – o que foi também observado pelos outros jesuítas e alguns passageiros – que quando o corpo desapareceu nas águas, agitadas havia dias, subitamente acalmaram para voltarem a agitar-se três ou quatro horas depois.


 


... pero que las hay, hay!


 


Setembro de 2014


 


 Henrique Salles da Fonseca


 


BIBLIOGRAFIA:


«P. Alexandre Moreira Aranha Furtado de Mendonça, SJ (1858-1914) – Missionário e linguista», Francisco Augusto da Cruz Correia, SJ, BROTÉRIA, Fevereiro de 2014, pág. 143 e seg.


 

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