Há 600 anos, Ceuta. Há 500, Afonso de Albuquerque. Do Mediterrâneo para o Mundo
Tudo começou com a conquista de Ceuta
A conquista de Ceuta, a 21 de Agosto de 1415, foi, sem dúvida, o acto fundacional da Expansão Portuguesa e deu origem a um secular império pluri-continental.
Nos anos seguintes a coroa incorporou definitivamente o arquipélago da Madeira nos seus domínios (1419-1425) e localizou de vez as ilhas dos Açores (1427), que logo ficaram sob a sua alçada política. Nenhum príncipe da cristandade, incluindo o rei de Castela, se opôs à tomada destes espaços insulares pelos Portugueses, o que evidencia uma percepção generalizada entre os Europeus de que Portugal era uma potência marítima, cujo espaço natural se estendia às águas adjacentes. Podemos dizer, assim, que Portugal se completou nos anos de 1415-1430, tendo então adquirido a configuração natural que perdurou até aos nossos dias. Só depois é que Gil Eanes venceu o cabo Bojador, e o país se estendeu para lá dos seus limites naturais e iniciou a aventura dos Descobrimentos.
Deste modo, o período que medeia entre 1415 e 1434, embora corresponda ao início da Expansão marítima – um ponto de partida, para uma nova fase da História de Portugal – também deve ser encarado como a fase de conclusão da definição territorial do próprio Portugal – o ponto de chegada do processo histórico iniciado por D. Afonso Henriques (r. 1143-1185) no longínquo século XII.
Quando Portugal ganhou a independência ao rei de Leão e Castela, o seu território era pequeno e estava confinado ao finisterra da cristandade. Além da sua pequenez, a monarquia lusa estava isolada entre o mar oceano, as lanças mouras e os apetites hegemónicos do vizinho leonês. No século XII, era raríssima a navegação que passava ao largo da costa portuguesa.
Quando Portugal ganhou a independência ao rei de Leão e Castela, o seu território era pequeno e estava confinado ao finisterra da cristandade. Só as terras a norte do Mondego estavam seguras e Leiria era um bastião fronteiriço em luta permanente com as hostes muçulmanas. O território do novo reino seria menos de metade da superfície do espaço peninsular contemporâneo. Além da sua pequenez, a monarquia lusa estava isolada entre o mar oceano, as lanças mouras e os apetites hegemónicos do vizinho leonês que sempre desejou reaver o antigo condado portucalense.
No século XII, era raríssima a navegação que passava ao largo da costa portuguesa, pois as cidades cristãs do Mediterrâneo não comunicavam por mar com as urbes do Norte da Europa, e as rotas mercantis islâmicas também eram predominantemente terrestres. O mar servia apenas pequenas comunidades piscatórias, mas a independência face a Leão criou desde logo uma nova necessidade, pois era fundamental abrir linhas de comunicação com os outros reinos e principados da cristandade, livres da interferência leonesa. Assim, o mar ganhou de imediato uma importância crucial para o jovem reino luso, e os príncipes do Norte europeu cedo se aperceberam que o Oeste peninsular tinha uma nova configuração política. A conquista de Lisboa, em 1147, contou com a ajuda de soldados do Norte que iam para a 2ª Cruzada, e nos anos seguintes, desenvolveram-se trocas comerciais, ainda que incipientemente, mas começaram a definir-se linhas estratégicas duradouras.
O reinado de D. Afonso Henriques foi marcado pelo avanço definitivo da linha de fronteira para o vale do Tejo e pela primeira ocupação de terras alentejanas; fracassada a tentativa de alargar os domínios lusos para oriente, em direcção à Andaluzia, como teria sucedido se depois da tomada de Trujillo, se tivesse conquistado Badajoz (1169), o rei Fundador, idoso e debilitado pelo acidente grave que sofreu, teve de conter o genro leonês ao mesmo tempo que enfrentava a reunificação do Al-andaluz pelos Almóadas. Ainda assim, o monarca também organizou as coisas do mar e a sua esquadra, comandada por D. Fuas Roupinho, terá andado pelo estreito de Gibraltar, ao mesmo tempo que a diplomacia lusa urdia as primeiras ligações com as potências do Canal da Mancha, o que levou mesmo ao casamento da infanta D. Teresa com Filipe da Alsácia, conde da Flandres.
Significa isto que Portugal se assumiu desde o início da sua existência como uma potência marítima, mesmo antes de a sua costa ser usada pela navegação mercantil europeia de longo curso. Não podemos saber, hoje, o que pensavam os reis e os seus conselheiros sobre esta matéria, mas podemos distinguir um modelo de diplomacia coerente ao longo de tempo que acabaria por desembocar na conquista de Ceuta e no início dos Descobrimentos. Na verdade, o Estreito de Gibraltar e o Canal da Mancha logo se mostraram como as fronteiras estratégicas de Portugal, ainda que as armas lusas só controlassem a costa desde a foz do rio Minho, até à foz do Guadiana, a partir de meados do século XIII, depois da conquista de Faro, em 1249.
A partir de meados do século XIII Portugal deixou de ter infantes sobejantes para enviar para o Atlântico norte, pois os monarcas tiveram poucos filhos, e estes foram necessários para a diplomacia peninsular, mas, entretanto, as relações marítimas de Portugal já se tinham aprofundado por outras vias.
E a cristandade também foi reconhecendo a importância estratégica de Portugal, como se percebe pela embaixada que o rei João de Inglaterra (r. 1199-1216) enviou a Coimbra, em 1199, tentando obter uma noiva portuguesa. D. Sancho I (r. 1185-1211) não atendeu ao pedido do monarca inglês, e no século XIII Portugal aproximou-se preferencialmente da França; embora nenhuma infanta portuguesa tenha casado com soberanos gauleses, os reis D. Sancho II (r. 1223-1248) e D. Afonso III (r. 1248-1279) eram primos co-irmãos do rei Luís IX de França (r. 1226-1270). Na primeira metade do século XIII infantas e infantes de Portugal casaram com vários titulares da Flandres e da costa francesa e duas portuguesas foram rainhas da Dinamarca.
A partir de meados do século XIII Portugal deixou de ter infantes sobejantes para enviar para o Atlântico norte, pois os monarcas tiveram poucos filhos, e estes foram necessários para a diplomacia peninsular, mas, entretanto, as relações marítimas de Portugal já se tinham aprofundado por outras vias. Com efeito, ao mesmo tempo que se fixava o território peninsular, entre 1249 e 1297, através de guerras e negociações com Castela, desenvolvia-se o comércio externo pelo mar, como forma de consolidar a independência do reino.
A via marítima assegurava o contacto directo com o resto da Cristandade e do mundo sem a interferência das monarquias hispânicas rivais. O avanço da Reconquista, que circunscreveu o Islão ibérico ao reino de Granada permitiu o desenvolvimento de novas rotas navais entre o Mediterrâneo e o Atlântico Norte e Lisboa ganhou um novo protagonismo como um dos portos preferenciais para o apoio a esses novos circuitos mercantis. Pela primeira vez, Lisboa e Portugal ganhavam uma centralidade no contexto europeu. No reinado de D. Dinis (r. 1279-1325) já eram muitas as comunidades de mercadores estrangeiros que estavam instaladas na cidade Lisboa, tanto de origem mediterrânica como vindas do Norte.
(continua)
João Paulo Oliveira e Costa
Historiador, Catedrático da FCSH da Universidade Nova de Lisboa
