A bem da Nação

PORQUE HOJE É DIA DE VER A DEUS - 2

 Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda


(Biblioteca online)


P. António Vieira, SJ.png Padre António Vieira


 


II


Exurge! Quare obdormis, Domine? Querer argumentar com Deus e convencê-lo com "Homem atrevido – diz S. Paulo – homem temerário, quem és tu, para que te ponhas a altercar com Deus? Porventura o barro que está na roda e entre as mãos do oficial, põe-se às razões com ele e diz-lhe: por que me fazes assim?" Pois se tu és barro, homem mortal, se te formaram as mãos de Deus da matéria vil da terra, como dizes ao mesmo Deus: – Quare? Quare? Como te atreves a argumentar com a sabedoria divina, como pedes razão à sua Providência do que te faz ou deixa de fazer? Quare obdormis? Quare faciem tuam avertis? Venera suas permissões, reverencia e adora seus ocultos juízos, encolhe os ombros com humildade a seus decretos soberanos, e farás o que te ensina a Fé e o que deves à criatura. Assim o fazemos, assim o confessamos, assim o protestamos diante de vossa Majestade infinita, imenso Deus, incompreensível bondade: Justus es, Domine, et rectum judicium tuum. Por mais que nós não saibamos entender vossas obras, por mais que não possamos alcançar vossos conselhos, sempre sois justo, sempre sois santo, sempre sois infinita bondade; e ainda nos maiores rigores de vossa justiça, nunca chegais com a severidade do castigo aonde nossas culpas merecem. Se as razões e argumentos da nossa causa as houvéramos de fundar em merecimentos próprios, temeridade fora grande, antes impiedade manifesta, querer-vos arguir. Mas nós, Senhor, como protestava o vosso profeta Daniel: Neque enim in justificationibus nostris, prosternimus preces ante faciem tuam, sed in miserationibus tuis multis: os requerimentos, e razões deles, que humildemente presentamos ante vosso divino conspecto, as apelações ou embargos que interpomos à execução e continuação dos castigos que padecemos, de  nenhum modo os fundamos na presunção de nossa justiça, mas todos na multidão de vossas misericórdias: In miserationibus tuis multis.


 


Argumentamos, sim, mas de vós para vós; apelamos, mas de Deus para Deus – de Deus justo, para Deus misericordioso. E como do peito, Senhor, vos hão de sair todas as setas, mal poderão ofender vossa bondade. Mas porque a dor quando é grande sempre arrasta o afecto, e o acerto das palavras é descrédito da mesma dor, para que o justo sentimento dos males presentes não passe os limites sagrados de quem fala diante de Deus e com Deus, em tudo o que me atrever a dizer seguirei as pisadas sólidas dos que em semelhantes ocasiões, guiados por vosso mesmo espírito, oraram e exoraram vossa piedade.


 


Quando o povo de Israel no deserto cometeu aquele gravíssimo pecado de idolatria, adorando o ouro das suas jóias na imagem bruta de um bezerro, revelou Deus o caso a Moisés, que com ele estava, e acrescentou irado e resoluto, que daquela vez havia de acabar para sempre com uma gente tão ingrata, e que a todos havia de assolar e consumir, sem que ficasse rasto de tal geração: Dimitte me, ut irascitur furor meus contra eos et deleam eos. Não lhe sofreu, porém, o coração ao bom Moisés ouvir falar em destruição e assolação do seu povo; põe-se em campo, opõe-se à ira divina e começa a arrazoar assim: Cur, Domine, irascitur furor tuus contra populum tuum? "E bem, Senhor, por que razão se indigna tanto a vossa ira contra o de vos dizer que está o povo idolatrando; que está adorando um animal bruto; que está negando a divindade ao mesmo Deus e dando-a a uma estátua muda, que acabaram de fazer suas mãos, e atribuindo-lhe a ela a liberdade e triunfo com que os livrou do cativeiro do Egito, e sobre tudo isso ainda perguntais a Deus por que razão se agasta: Cur irascitur furor tuus?! – Sim, e com muito prudente zelo; porque ainda que da parte do povo havia muito grandes razões de ser castigado, da parte de Deus era maior a razão que havia de o não castigar: Ne, quaeso, – dá razão Moisés, – ne, quaeso, dicant Aegyptii: Callide eduxit eos, ut interficeret in montibus et deleret e terra. Olhai, Senhor, que porão mácula os egípcios em vosso ser, e, quando menos, em vossa verdade e bondade. Dirão que, cautelosamente e à falsa fé, nos trouxestes a este deserto, para aqui nos tirardes a vida a todos e nos sepultardes. E com esta opinião divulgada e assentada entre eles, qual será o abatimento de vosso santo nome, que tão respeitado e exaltado deixastes no mesmo Egipto, com tantas e tão prodigiosas maravilhas do vosso poder? Convém logo, para conservar o crédito, dissimular o castigo e não dar com ele ocasião àqueles gentios e aos outros, em cujas terras estamos, o que dirão: Ne, quaeso, dicant.


 


Desta maneira arrazoou Moisés em favor do povo; e ficou tão convencido Deus da força deste argumento, que no mesmo ponto revogou a sentença, e, conforme o texto hebreu, não só se arrependeu da execução, senão ainda do pensamento: Et poenituit Dominum mali, quod cogitaverat facere populo suo. E arrependeu-se o Senhor do pensamento e da imaginação que tivera de castigar o seu povo.


 


Muita razão tenho eu logo, Deus meu, de esperar que haveis de sair deste sermão arrependido, pois sois o mesmo que éreis, e não menos amigo agora, que nos tempos passados, de vosso nome: Propter nomen tuum. Moisés disse-vos: Ne, quaeso, dicant: "Olhai, senhor, que dirão." E eu digo e devo dizer: Olhai, senhor, que já dizem. Já dizem os hereges insolentes com os sucessos prósperos, que vós lhes dais ou permitis: já dizem que porque a sua, que eles chamam religião, é a verdadeira, por isso Deus os ajuda e vencem; e porque a nossa é errada e falsa, por isso nos desfavorece e somos vencidos. Assim o dizem, assim o pregam, e ainda mal, porque não faltará quem os creia. Pois é possível, Senhor, que hão de ser vossas permissões argumentos contra vossa Fé? É possível que se hão de ocasionar de nossos castigos blasfêmias contra vosso nome?! Que diga o herege (o que treme de o pronunciar a língua), que diga o herege, que Deus está holandês?! Oh não permitais tal, Deus meu, não permitais tal, por quem sois! Não o digo por nós, que pouco ia em que nos castigásseis; não o digo pelo Brasil, que pouco ia em que o destruísseis; por vós o digo e pela honra de vosso Santíssimo Nome, que tão imprudentemente se vê blasfemado: Propter nomen tuum. Já que o pérfido calvinista dos sucessos que só lhe merecem nossos pecados faz argumento da religião, e se jacta insolente e blasfemo de ser a sua verdadeira, veja ele na roda dessa mesma fortuna, que o desvanece, de que parte está a verdade. Os ventos e tempestades, que descompõem e derrotam as nossas armadas, derrotem e desbaratem as suas; as doenças e pestes, que diminuem e enfraquecem os nossos exércitos, escalem as suas muralhas e despovoem os seus presídios, os conselhos que, quando vós quereis castigar, se corrompem, em nós sejam alumiados e neles enfatuados e confusos. Mude a vitória as insígnias, desafrontem-se as cruzes católicas, triunfem as vossas chagas nas nossas bandeiras, e conheça humilhada e desenganada a perfídia, que só a Fé romana, que professamos, é Fé, e só ela a verdadeira e a vossa. Mas ainda há mais quem diga. Ne, quaeso, dicant Aegyptii: Olhai, Senhor, que vivemos entre gentios, uns que o são, outros que o foram ontem; e estes que dirão? Que dirá o Tapuia bárbaro sem conhecimento de Deus? Que dirá o Índio inconstante, a quem falta a pia afeição da nossa Fé? Que dirá o Etíope boçal, que apenas foi molhado com a água do baptismo sem mais doutrina? Não há dúvida que todos estes, como não têm capacidade para sondar o profundo de vossos juízos, beberão o erro pelos olhos. Dirão, pelos efeitos que vêem, que a nossa Fé é falsa, e a dos holandeses a verdadeira, e crerão que são mais cristãos, sendo como eles. A seita do herege torpe e brutal concorda mais com a brutalidade do bárbaro; a largueza e soltura da vida, que foi a origem e é o fomento da heresia, casa-se mais com os costumes depravados e corrupção do gentilismo; e que pagão haverá que se converta à Fé que lhe pregamos, ou que novo cristão já convertido, que se não perverta, entendendo e persuadindo-se uns e outros que no herege é premiada a sua lei, e no Católico se castiga a nossa? Pois se estes são os efeitos, posto que não pretendidos, de vosso rigor e castigo, justamente começado em nós, se ateia e passa com tanto dano aos que não são cúmplices das nossas culpas: Cur irascitur furor tuus? Por que continua sem estes reparos o que vós mesmo chamastes furor? E por que não acabais já de embainhar a espada de vossa ira? Se tão gravemente ofendido do povo hebreu, por um que dirão dos egípcios lhe perdoastes; o que dizem os hereges, e o que dirão os gentios,não será bastante motivo para que vossa rigorosa mão suspenda o castigo e perdoe também os nossos pecados, pois, ainda que grandes, são menores? Os hebreus adoraram o ídolo, faltaram à Fé, deixaram o culto do verdadeiro Deus, chamaram Deus e Deuses a um bezerro: e nós, por mercê de vossa bondade infinita, tão longe estamos e estivemos sempre de menor defeito ou escrúpulo nesta parte, que muitos deixaram a pátria, a casa, a fazenda, e ainda a mulher e os filhos, e passam em suma miséria desterrados, só por não viver nem comunicar com homens que se separaram da vossa Igreja. Pois, Senhor meu e Deus meu, se por vosso amor e por vossa Fé, ainda sem perigo de a perder ou arriscar, fazem tais finezas os portugueses: Quare oblivisceris inopiae nostrae? et tribulationis nostrae? Por que vos esqueceis de tão religiosas misérias, de tão católicas tribulações? Como é possível que se ponha Vossa Majestade irada contra estes fidelíssimos servos, e favoreça a parte dos infiéis, dos excomungados, dos ímpios? Oh! como nos podemos queixar neste passo, como se queixava lastimado , quando, despojado dos sabeus e caldeus, se viu, como nós nos vemos, no extremo da opressão e miséria: Nunquid bonum tibi videtur, si calumnieris me et opprimas me opus manuum tuarum et consilium impiorum adjuves? Parece-vos bem, Senhor, parece-vos bem isto? Que a mim, que sou vosso servo, me oprimais e aflijais, e aos ímpios, aos inimigos vossos os favoreçais e ajudeis? Parece- vos bem que sejam eles os prosperados e assistidos de vossa providência, e nós os deixados de vossa mão; nós os esquecidos de vossa memória, nós o exemplo de vossos rigores, nós o despojo de vossa ira? Tão pouco é desterrar-nos por vós e deixar tudo? Tão pouco é padecer trabalhos, pobrezas e os desprezos que elas trazem consigo, por vosso amor? Já a fé não tem merecimento? Já a piedade não tem valor? Já a perseverança não vos agrada? Pois se há tanta diferença entre nós, ainda que maus, e aqueles pérfidos, por que os ajudais a eles e nos desfavoreceis a nós? Nunquid bonum tibi videtur: "A vós, que sois a mesma bondade, parece-vos bem isto?"


(continua)


Berta Brás.jpg Berta Brás

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