UM SERMÃO DE VIEIRA
Um artigo do Dr. Salles da Fonseca sobre uma figura da história da Holanda que teve participação na história portuguesa – Maurício de Nassau, governador do Nordeste Brasileiro na altura do domínio filipino em Portugal – fez-me procurar na Internet o Sermão do Padre António Vieira responsável pela revolta portuguesa que repôs o governo português no Recife. Trata-se do “Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda” que eu apenas conhecia por referência, e logo encontrei, com alegria e gratidão pela Internet, mais uma peça de arte oratória que resolvi guardar no meu blog.
Um sermão que mais uma vez comprova os extraordinários dons oratórios de Vieira, no seu discurso temerário, desafiante – desta vez ao próprio Deus, tal como o haviam feito outras personagens bíblicas das suas citações, que vai entremeando com ironia ou zanga ao longo dos cinco capítulos da estrutura externa, para adaptar às razões que evoca na argumentação com Deus e o levar ao arrependimento por consentir que o povo que difundiu a fé pelo mundo seja escorraçado em parte desse mundo por um povo herege, o holandês.
É este, pois, o tema do sermão, que parte dum juízo bíblico – o conceito predicável – retirado do salmo XLIII de David – que traduzo do manual bíblico de que disponho: Bíblia Sagrada (versão dos textos originais), 5ª Edição, 1973 pela Difusora Bíblica (Missionários Capuchinhos) Lisboa: «Acordai, Senhor, porque dormis? / Despertai e não me rejeiteis para sempre! / Porque escondeis a vossa face? / Esqueceis a nossa miséria e opressões? ( / A nossa alma está prostrada até ao pó, / O nosso ventre pegou-se à terra,) / Levantai-vos, e vinde em nosso auxílio, / E livrai-nos pela vossa bondade!»
E as frases do Salmo são retomadas logo no Exórdio (Cap. I), repetidas a espaços, como refrão, para apoiar paralelisticamente o discurso da sua lógica argumentativa, que finaliza em censura: Se o dedo de Deus esteve presente na acção descobridora portuguesa, como o retirou, castigando um povo devoto, que no amor de Deus tanto fizera e tão longe chegara, espalhando a fé, e vendo agora o seu território ocupado por inimigos dessa mesma fé? Será, pois um discurso de desafio a Deus, propter nomen tuum, para a própria glória de Deus, desviando-o da injustiça.
Abrange a Exposição os capítulos II-IV, sempre em forma de libelo repetitivo, justificada a argumentação com o recurso às citações bíblicas do seu paralelismo condenatório, de desafio e acusação, para opor seguidamente a ocupação portuguesa em nome da fé, à dos hereges holandeses em nome do interesse económico: No capítulo II, cita S. Paulo a pretexto de uma autocrítica pela sua ousadia em se opor aos juízos de Deus e logo se socorre das críticas bem sucedidas de Moisés contra a severidade de Jeová para com os judeus idólatras do bezerro de ouro. Também Job lhe serve de apoio crítico, na injustiça de que os portugueses são alvo, e no lamento que nele provoca a penúria de fé que a extorsão holandesa traz aos tapuias, evangelizados por Vieira e outros evangelistas. O capítulo III desenvolvendo ainda mais os argumentos históricos e emotivos contra o povo holandês, repisa as citações anteriores, acrescentando Josué, no seu lamento e na sua incompreensão pelo sofrimento do povo de Israel, e exprime dolorosamente o seu desafio irónico de bênçãos divinas para o povo holandês. Outras citações bíblicas são citadas no capítulo IV neste discurso de argumentação e contra-argumentação, como a parábola do banquete ou a das dez virgens para as lâmpadas da Fé acesas, e novamente o desafio e a ameaça da substituição de S. Jerónimo e de Santo Agostinho pelas doutrinas reformistas de Lutero e de Calvino.
Um capítulo V da Peroração, jogando com uma argumentação cerrada em torno do pecado e do conceito de uma glória maior para um Deus que perdoa do que para um Deus que castiga, seguida do Epílogo de apelo ao perdão de Deus pelos merecimentos da Virgem Santíssima:
Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda
(Biblioteca online)
Padre António Vieira
Exurge quare obdormis, Domine? Exurge, et ne repellas in finem. Quare faciem tuam avertis, oblivisceris inopiae nostrae et tribulationis nostrae? Exurge, Domine, adjuva nos et redime nos propter nomen tuum.
(Salmo XLIII)
I
Com estas palavras piedosamente resolutas, mais protestando, que orando, dá fim o Profeta Rei ao Salmo quarenta e três. Salmo, que desde o princípio até o fim, não parece senão cortado para os tempos e ocasião presente. O Doutor Máximo S. Jerónimo, e depois dele os outros expositores, dizem que se entende à letra de qualquer reino ou província católica, destruída e assolada por inimigos da Fé. Mas entre todos os reinos do Mundo a nenhum lhe quadra melhor que ao nosso Reino de Portugal; e entre todas as províncias de Portugal a nenhuma vem mais ao justo que à miserável província do Brasil.
Vamos lendo todo o Salmo, e em todas as cláusulas dele veremos retratadas as da nossa fortuna: o que fomos e o que somos.
Deus, auribus nostris audivimus, Patres nostri annuntiaverunt nobis, opus, quod operatus es in diebus eorum, et in diebus antiquis. Ouvimos(começa o profeta) a nossos pais, lemos nas nossas histórias e ainda os mais velhos viram, em parte, com seus olhos as obras maravilhosas, as proezas, as vitórias, as conquistas, que por meio dos portugueses obrou em tempos passados vossa omnipotência, Senhor. Manus tua gentes disperdit, et plantasti eos; afflixisti populos et expulisti eos. Vossa mão foi a que venceu e sujeitou tantas nações bárbaras, belicosas e indómitas, e as despojou do domínio de suas próprias terras para nelas os plantar, como plantou com tão bem fundadas raízes; e para nelas os dilatar, como dilatou e estendeu em todas as partes do Mundo, na África, na Ásia, na América. Nunc autem repulisti et confundisti nos; et non egredieris Deus in virtutibus nostris. Porém agora, Senhor, vemos tudo isso tão trocado, que já parece que nos deixastes de todo e nos lançastes de vós, porque já não ides diante das nossas bandeiras, nem capitaneais como dantes os nossos exércitos. Avertisti nos retrorsum post inimicos nostros, et qui oderunt nos, diripiebant sibi. Os que tão costumados éramos a vencer e triunfar, não por fracos, mas por castigados, fazeis que voltemos as costas a nossos inimigos (que como são açoite de vossa justiça, justo é que lhes demos as costas), e perdidos os que antigamente foram despojos do nosso valor, são agora roubo da sua cobiça. Dedisti nos tanquam oves escarum et in gentibus dispersisti nos. Os velhos, as mulheres, os meninos, que não têm forças nem armas com que se defender, morrem como ovelhas inocentes às mãos da crueldade herética, e os que podem escapar à morte, desterrando-se a terras estranhas, perdem a casa e a pátria. Posuisti nos opprobrium vicinis nostris, subsannationem et derisum his, qui sunt in circuitu nostro. Não fora tanto para sentir, se, perdidas fazendas e vidas, se salvara ao menos a honra; mas também esta a passos contados se vai perdendo; e aquele nome português, tão celebrado nos anais da fama, já o herege insolente com as vitórias o afronta, e o gentio de que estamos cercados, e que tanto o venerava e temia, já o despreza. Tu es ipse rex meus et Deus meus: qui mandas salutes Jacob. Com tanta propriedade como isto descreve David neste Salmo nossas desgraças, contrapondo o que somos hoje ao que fomos enquanto Deus queria, para que na experiência presente cresça a dor por oposição com a memória do passado. Ocorre aqui ao pensamento o que não é lícito sair à língua, e não falta quem discorra tacitamente, que a causa desta diferença tão notável foi a mudança da monarquia. Não havia de ser assim (dizem) se vivera um D. Manuel, um D. João o Terceiro, ou a fatalidade de um Sebastião não sepultara com ele os reis portugueses. Mas o mesmo Profeta no mesmo Salmo nos dá o desengano desta falsa imaginação: Tu es ipse rex meus et Deus meus: qui mandas salutes Jacob. O Reino de Portugal, como o mesmo Deus nos declarou na sua fundação, é reino seu e não nosso: Volo enim in te et in semine tuo imperium mihi stabilire, e como Deus é o rei: Tu es ipse rex meus et Deus meus; e este rei é o que manda e o que governa: Qui mandas salutes Jacob, ele que não se muda é o que causa estas diferenças, e não os reis que se mudaram. À vista, pois, desta verdade certa e sem engano, esteve um pouco suspenso o nosso Profeta na consideração de tantas calamidades, até que para remédio delas o mesmo Deus, que o alumiava Exurge, quare obdormis, Domine? Exurge, et ne repellas in finem. Quare faciem tuam avertis, oblivisceris inopiae nostrae et tribulationis nostrae? Exurge, Domine, adjuva nos et redime nos propter nomen tuum. Não prega David ao povo, não o exorta ou repreende, não faz contra ele invectivas, posto que bem merecidas; mas todo arrebatado de um novo e extraordinário espírito, se volta não só a Deus, mas piedosamente atrevido contra ele. Assim como Marta disse a Cristo: Domine, non est tibi curae? assim estranha David reverentemente a Deus, e quase o acusa de descuidado. Queixa-se das desatenções de sua misericórdia e providência, que isso é considerar a Deus dormindo: Exurge! Quare obdormis, Domine? Repete-lhe que acorde e que não deixe chegar os danos ao fim, permissão indigna de sua piedade: Exurge, et ne repellas in finem. Pede-lhe a razão por que aparta de nós os olhos e não volta o rosto: Quare faciem tuam avertis?, e por que se esquece da nossa miséria e não faz caso de nossos trabalhos: Oblivisceris inopiae nostrae et tribulationis nostrae?E não só pede de qualquer modo esta razão do que Deus faz e permite, senão que insta a que lha dê, uma e outra vez: Quare obdormis? Quare oblivisceris?
Finalmente, depois destas perguntas, a que supõe que não tem Deus resposta, e destes argumentos com que presume o tem convencido, protesta diante do tribunal de sua justiça e piedade, que tem obrigação de nos acudir, de nos ajudar e de nos libertar logo: Exurge, Domine, adjuva nos et redime nos. E para mais obrigar ao mesmoSenhor, não protesta por nosso bem e remédio, senão por parte da sua honra e glória: Propter nomen tuum. Esta é, Todo-Poderoso e Todo-Misericordioso Deus, esta é a traça de que usou para render vossa piedade, quem tanto se conformava com vosso coração.E desta usarei eu também hoje, pois o estado em que nos vemos, mais é o mesmo que semelhante. Não hei de pregar hoje ao povo, não hei de falar com os homens; mais alto hão de sair as minhas palavras ou as minhas vozes: a vosso peito divino se há de dirigir todo o sermão. É este o último de quinze dias contínuos, em que todas as igrejas desta Metrópole, a esse mesmo trono de vossa patente Majestade, têm representado suas deprecações; e, pois, o dia é o último, justo será que nele se acuda tão bem ao último e único remédio. Todos estes dias se cansaram debalde os oradores evangélicos em pregar penitência aos homens; e, pois, eles se não converteram, quero eu, Senhor, converter-vos a vós. Tão presumido venho da vossa misericórdia, Deus meu, que ainda que nós somos os pecadores, vós haveis de ser o arrependido.
O que venho a pedir ou protestar, Senhor, é que nos ajudeis e nos liberteis: Adjuva nos, et redime nos. Mui conformes são estas petições ambas ao lugar e ao tempo. Em tempo que tão oprimidos e tão cativos estamos, que devemos pedir com maior necessidade, senão que nos liberteis: Redime nos? E na casa da Senhora da Ajuda, que devemos esperar com maior confiança, senão que nos ajudeis: Adjuva nos? Não hei de pedir pedindo, senão protestando e argumentando; pois esta é a licença e liberdade que tem quem não pede favor, senão justiça. Se a causa fora só nossa e eu viera a rogar só por nosso remédio, pedira favor e misericórdia. Mas como a causa, Senhor, é mais vossa que nossa, e como venho a requerer por parte de vossa honra e glória, e pelo crédito de vosso nome – Propter nomen tuum – razão é que peça só razão, justo é que peça só justiça. Sobre este pressuposto vos hei de arguir, vos hei de argumentar; e confio tanto da vossa razão e da vossa benignidade, que também vos hei de convencer. Se chegar a me queixar de vós e a acusar as dilatações de vossa justiça, ou as desatenções de vossa misericórdia: Quare obdormis? Quare oblivisceris? Não será esta vez a primeira em que sofrestes semelhantes excessos a quem advoga por vossa causa. As custas de toda a demanda também vós, Senhor, as haveis de pagar, porque me há de dar vossa mesma graça as razões com que vos hei de arguir, a eficácia com que vos hei de apertar e todas as armas com que vos hei de render. E se para isto não bastam os merecimentos da causa, suprirão os da Virgem Santíssima, em cuja ajuda principalmente confio. Ave Maria.
(continua)
