O título de qualquer escrito deve ser a síntese da matéria tratada e deve ser curto. Se assim não for, cai-se na situação infelizmente tão frequente nos jornais de o título ser muito chamativo e, afinal, não corresponder ao conteúdo da notícia; quanto a ser curto, é fundamental que não se caia no erro de Marco Polo em cujo livro os títulos dos capítulos são tão longos que a meio da leitura de cada um já ficamos com vontade de mandar o livro todo às urtigas. Eis por que me fixei no título acima depois de várias hipóteses ou muito longas ou pouco interessantes.
Significa o título que demos o salto para o outro lado do meridiano definido pelo Tratado de Tordesilhas naquela que foi a sua versão final das não sei quantas léguas a Oeste de Cabo Verde[1].
O «salto» propriamente dito foi dado de Madrid a Panamá City no dia 3 de Março e demorou 10 horas, muitas das quais num mapa sem legendas pois era apenas mar duma ponta à outra da carta de marear que nos era apresentada em contínuo ao longo do «salto». Já fiz vôos mais longos (de Amesterdão a Hong Kong em 11 h e 30’), (Dubai-Melbourne em 13 h) mas esta viagem de agora foi diurna e, como tal, teve horas muito mais compridas do que as da noite. Mas Cristóvão Colombo demorou muito mais tempo, rumou a um sítio que não era (enquanto eu sabia muito bem para onde me encaminhava) e – dizem por aí – ele enganou muito bem os reis de Espanha (eu não pretendi enganar ninguém apesar de uma brincadeira de espionagem que a seu tempo contarei). E se o fito era o de enganar os reis espanhóis, Colombo fê-lo com tal perícia que repetiu a dose mais duas vezes. Na volta da primeiro viagem, aportou a Lisboa (por engano?) e foi a Valparaíso, localidade do Concelho de Azambuja, contar não sei exactamente o quê ao nosso rei D. João II que lhe terá dito ou ordenado o que não ficou registado na História. Não consta que no regresso da segunda nem da terceira viagens se tenha enganado no azimute da foz do Guadalquivir ou no da praia da Malagueta.
Entretanto, os nossos navegavam em segredo por África abaixo…
E foi pensando nestas e noutras piruetas e rapiocas da História que pus pé no Panamá, lá quase na outra banda, perto do Pacífico.
Pode ter sido a agente que me calhou em «sorte» nas formalidades de entrada no país mas, sem animosidades a assinalar, já me encontrei com gente muito mais simpátrica. E então, lembrei-me de que durante muito tempo aquele não foi o país da Alice: conquistadores mais ou menos sanguinários mas todos rudes, piratas e corsários, gringos dominadores, independência fictícia, narcotraficantes e banqueiros aventureiros… E foi neste remoinho de lembranças que me veio à memória esse General bexigoso, Noriega, que ameaçou o Tio Sam de dar com a língua nos dentes sobre o tráfico de influências no financiamento do processo «Irão-Contras» e acabou por passar uma temporada larga nos calabouços americanos sob a acusação de tráfico de droga. Longe de mim dizer que Noriega era um «santinho» ou sequer um democrata endeusado pelo seu povo; pelo contrário, sempre o tive por um grande malandro, autocrata, vingativo e corrupto mas eventualmente menos pior do que outros que giraram na História do Panamá. Do «drama» Noriega extraio um clima historicamente dominante de injustiça que azeda aquela Nação. Compreendo a rudeza daquela gente – de que a Fulana dos passaportes é mero exemplo - e tenho pena de ter ouvido a resposta que me deram quando perguntei se o actual regime político é democrático ou autocrático: - Corrupto mas com eleições.
Do aeroporto de Panamá City rumámos directamente a Colón que é o porto marítimo atlântico. Foram 80 Kms por estradas assim-assim e por uma autoestrada aceitável. Era noite, não vi nada.
(continua)
Março de 2020
Henrique Salles da Fonseca
[1] - 370 léguas (1770 km)