A bem da Nação

POR ESSA PICADA ALÉM… - 5

 


Terá sido um Xicuembo[1] que disse: - Toma atenção, aqui mandam os antepassados senas, não mais os dos muçulmanos macuas! Se vens feito com eles, põe-te a pau!


E o homem do volante, tremendo, pensou mas não disse: - Aqui ao volante quem manda sou eu e em mim manda o General Kaulza. Se não cumpro o que ele me ordena, levo um porradão que nunca mais me endireito. Portanto, amigo Xicuembo, não me peças o que não posso dar-te que é para não entornarmos o caldo.


Benigno, o Xicuembo mostrou a sua compreensão e deixou-nos passar em beleza. E estou mesmo em crer que tudo nos correu tão bem na travessia da Zambézia que esse Xicuembo nos protegeu especialmente se é que, incógnito, não nos acompanhou no lugar que trazíamos vago no banco de trás, ao lado do Miguel. Não me lembro de o Miguel ter dito que sentia alguém ali ao lado mas pode ser que agora nos confesse alguma coisa. - Vá lá, Miguel. Já passaram 47 anos, aquele Xicuembo já se deve ter reformado, acho que podes falar à vontade.


E enquanto o Miguel toma balanço para contar (ou não), eu conto como tudo se passou.


Saídos de madrugada do Posto em que pernoitáramos, a picada era arenosa ao estilo guinchoso (da praia do Guincho) mas o nosso «herói» não se temeu e levou-nos até ao Molocué zumbindo mas sem hesitações. E foi esse zumbido que avisou quem estava naquele momento à porta da cerca da Companhia dos Algodões de Moçambique que nos fez logo sinal para não pararmos e nos dirigirmos de imediato para a oficina de mecânica. Pelos vistos, não éramos os primeiros a chegar ali «a pé coxinho» ou, mais prosaicamente, «de calças na mão». E logo fomos atendidos como se todos estivessem prevenidos da nossa chegada. Diagnóstico confirmado logo que o «herói» mostrou a barriga: um buraco no carter da caixa de velocidades, valvulina praticamente a zero. Terapêutica: tapar o buraco com a massa feita da casca da árvore «?x?p?t?o?», repor o nível da valvulina e seguir viagem como se nada tivesse acontecido; o calor gerado pelo funcionamento da caixa iria secar a massa e quando eu mandasse arranjar tudo a título definitivo, haviam de se ver aflitos para tirar a dita massa casqueira. Isso confirmou-se mais de um ano depois e já não faz parte das crónicas desta viagem.


- Pode seguir!!!


- E quanto devo?


- Não deve nada.


- Como assim? Os Senhores com esse trabalho todo e eu não tenho nada que pagar?


- É assim mesmo, não tem nada que pagar. Nós não estamos aqui só para ganhar dinheiro com o algodão, estamos também para ajudar a terra e quem nela vive.


- Mas eu não vivo aqui, sou militar em deslocação oficial, recebo ajudas de custo para as eventualidades deste ou de outro género, sinto que devo pagar.


- Pois que seja tudo isso mas aqui não paga nada.


- Então, para além dos meus agradecimentos pessoais a si, deixe-me agradecer ao Patrão da Companhia.


- O Grande Patrão vive em Lisboa e o Patrão daqui foi a Lourenço Marques e a Johannesburg, não está cá. O Senhor faça o que lhe digo: não perca o seu tempo com agradecimentos e faça-se à estrada para ver se ainda hoje chega a Quelimane.


Feitos os agradecimentos da praxe, fizemo-nos ao caminho… Em silêncio, agradeci ao nosso companheiro Xicuembo e em voz alta fomos comentando a pujança da economia algodoeira daquela região. A população não nadaria em abastança mas também não se via miséria.


Guerra? Qu’é isso? Tudo mais sereno que a noite lisboeta.


Zambezia.gif


Neste segundo dia de viagem, o caminho levar-nos-ia a M0cuba que então era a sede do Comando de um subsector militar e, mais além, passando Nicoadala, aos famosos palmares zambezianos.


Continuemos…


Julho de 2019


Henrique Salles da Fonseca


 


[1] - Espírito de antepassado em várias culturas moçambicanas

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