A bem da Nação

POR ESSA PICADA ALÉM… - 13

- Bom dia, Camaradas! – disse o Miguel – São 6 horas, é hora de levantar!


- Então, como é? São 6 e é hora? Ou são ou é, as duas coisas é que não pode ser. Se é plural, não é singular e vice-versa.


- Olha, olha! A este deu-lhe para acordar com a semântica e com a sintaxe… caiu-te mal o jantar? – perguntava eu.


- Achas então que a frase estava bem construída?


- Eh pá! Deixa-te de preciosismos linguísticos e não chateies o nosso relógio. Ele só anda no liceu, faltam-lhe ainda os tempos gerúndicos dos verbos. O que interessa é que ele sabe ver as horas.


- Tá bem! Mas o que está mal é levantarmo-nos tão cedo para fazermos só 200 quilómetros – entremeou o Tó com um bocejo.


- 205 – corrigiu o Miguel


- Essa diferença faz-se a pé numa hora de mochila às costas e de Kropashek ao ombro.


- Kropa quê? – perguntou o civil do relógio.


- É uma espingarda da primeira guerra mundial que põem aos ombros dos Cadetes só para chatear – disse eu – mas continuem nessas parvoíces que é para eu me ir arranjar em vez de ser eu hoje a esperar por Vosselências.


- Esta selência volta-se para o outro lado enquanto espera – disse o Tó


Eram 7 e meia quando dei à ignição e a resposta do nosso «herói» foi de evidente noite bem dormida. E eu também não sentia do que me queixar. 205 quilómetros era coisa para fazermos em menos de duas horas. Estaríamos na Maxixe pelas 10 da manhã, o mais tardar. E que havemos de fazer no resto do dia? O melhor é nem levantar a questão, não vão os gajos porem-se com ideias… e quem padece é o «herói» e eu agarrado ao volante. Calemo-nos e andemos!


E, calado, andei.


E porque o caminho seria tranquilo, tanto o «desempregado» como o «relógio» se deixaram dormir e aqui o «homem do leme» que se atribulasse com as conveniências e precisões. E como não tinha com quem conversar, fui-me lembrando de que…


… este era o Reino de Gaza onde o Mouzinho tinha andado à espadeirada e onde puxara as orelhas ao Gungunhana.


E pensei nesse rei que poderia ter tido uma vida regalada e porque não seguiu as sugestões do seu tio Molungo, conselheiro e companheiro de exílio, deitou tudo a perder e perdeu mesmo tudo. E como teria sido a História de Moçambique se a inteligência de Molungo se tivesse sobreposto à rigidez mental de Gungunhana? Como é possível sujeitar povos inteiros aos caprichos de incompetentes que nem sequer são capazes de assumir a tirania e se limitam a bafejar as ocorrências com halos de boçalidade? Pena que Molungo não tenha aceite liderar um golpe de Estado contra o sobrinho; pena Godide, o filho de Gungunhana, ter confirmado a lealdade antes jurada ao pai - o que como filho é louvável mas como homem de Estado foi deplorável para os interesses reais do seu povo; pena Gungunhana ser tão «quadrado».


Mas não vale a pena tentarmos imaginar como tudo teria sido na continuação do que não foi. É que, bem vistas as coisas, nunca se poderão conhecer os resultados das experiências não experimentadas. Mouzinho fez várias propostas a Gungunhana a ponto de o deixar governar num enquadramento de paz com os demais povos que Portugal superentendia mas não, o «leão de Gaza» não queria a paz com os vizinhos mais próximos e queria continuar a pôr e a dispor da sua Justiça sem as leis consuetudinárias dos Conselhos de Velhos, a equidade preta ou branca e muito menos as orientações do nosso Direito positivo. Outra questão: terá Gungunhana chegado a perceber o que Mouzinho lhe propunha? Molungo parece que sim, percebeu e aconselhou o sobrinho. Debalde, terá optado pelo exílio para não ver a desgraça que se abateria sobre o seu povo. Não se abateu desgraça como a que Molungo temia. Os povos de Gaza continuaram a viver e até pouparam guerras com os vizinhos mas demorou muito tempo para que conseguissem voltar a ter Conselhos de Velhos cujas decisões (o seu Direito consuetudinário) pudessem ser homologadas pelos novos Senhores da Guerra e da Nova Paz, os brancos, nós.



  • Gungunhana nos Açores.png


Godide, Gungunhana, Molungo e ...(?)


E foi nestas confabulações que vi a placa a assinalar «MAXIXE» e acordei os dormentes.


- Eh malta! Chegámos!


- O quê, o quê? Já chegámos?


- Já! E, entretanto, o Gungunhana foi preso.


- Ah! Sim, foi preso. Quem é que foi preso? O Judas Iscariote?


- Acorda, pá! Já chegámos!


Amanhã há mais, talvez estes personagens já estejam acordados.


Julho de 2019


Henrique Salles da Fonseca

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