A bem da Nação

POEMA DE AMOR EM PROSA

 


 


Estes tempos que agora vivemos


São de tal forma aterradores


Que impõem que nos desviemos


Para os contos de encantar da nossa infância


Que nos perspectivem dias multicores


Em futuro de mais abundância


Não só de víveres mas de almas superiores.


Florian também deve ter vivido


Pesadelos e receios do futuro


Duro.


E inventou, por isso, fábulas de encantar


Semelhantes às histórias de nanar


Para ajudar a responsabilizar.


É disso exemplo a fábula


 



 


«O bom homem e o tesouro»,


 


Ouro puro,


Bom agouro:


«Um bom homem meu familiar,


Que eu conheci na minha infância,


De toda a vizinhança


Se fazia estimar;


Dos pequenos e dos grandes


Consultado, venerado


Como um sábio,


Na sua terra vivia.


Não tinha muito dinheiro,


Mas bastante para um viver na independência.


Em troca, virtudes bastantes possuía,


Bom senso, espírito, saber,


E a amenidade própria da inocência


E da decência.


Quando um pobre o vinha ver,


Se tinha dinheiro pistolas lhe dava;


Se não tinha, com as suas palavras,


Coragem e esperança


Lhe transmitia.


Apaziguava as famílias,


Corrigia brandamente os jovens irreflectidos,


Ria com as raparigas


E achava para elas os maridos.


Com os defeitos dos outros era indulgente,


“Não temos também os nossos?”, dizia frequentemente.


“Estes nasceram coxos, corcundas aqueles,


Um, um pouco menos, o outro, um pouco mais:


A natureza de cem maneiras diferentes


Nos quis afligir: caminhemos juntos, em paz.


O caminho é mau suficientemente,


Sem que precisemos


De pedras nos atirarmos.”


Ora um certo dia aconteceu


Que o nosso bom senhor num caminho encontrou


Um tesouro escondido sob a terra.


Primeiro, um meio nisso viu


De ainda mais o bem espalhar;


Assim o colhe, o leva, o escondeu.


Depois, reflectindo, disse consigo:


“Faria mais proveito, com efeito,


Este ouro, que eu achei,


Se eu aumentasse o meu domínio antigo;


Mais vassalos eu teria, mais poderoso serei.


Melhor ainda poderei fazer: na cidade próxima


Comprarei um cargo, serei presidente.


Presidente! Vale a pena!


Eu não me formei em Direito; mas com o meu capital,


Sem qualquer empena


Mo concederão


Visto que é um cargo comprável


E sem investigação. “


Enquanto faz projectos, a sonhar,


A criada o vem avisar


De que as gentes da aldeia


No pátio do castelo se estão a divertir.


Ao domingo, era habitual


O senhor do castelo com eles dançar.


“Oh! Por Deus, responde ele, tenho outros assuntos a tratar.


Dancem sem mim.” Com o espírito de quimeras cheio,


Ele fecha-se em casa para melhor se atormentar.


Em seguida ao seu pecúlio vai acrescentar


Um pequeno saco de dinheiro, resto do mês anterior.


Nesse momento chega um pobre homem


Que em lágrimas lhe vem suplicar


O empréstimo de vinte escudos


Para o imposto da talha pagar:


“O cobrador, disse ele, vai meter-me na cadeia


E não deixou em minha casa senão


Seis crianças sobre um colchão de palha.”


O nosso novo Creso responde-lhe duramente


Que não tem dinheiro líquido para lhe dar,


De momento.


O pobre infeliz olha-o, suspira,


E sem mais palavras se retira.


Mas ele não ia longe, quando o bom senhor


Retomou de repente o seu modo de ser anterior.


Corre ao camponês, abraça-o,


De cem escudos lhe faz dom,


E ainda lhe pede perdão.


Manda avisar, seguidamente,


Que na praça o povo se reúna num instante.


Obedecem-lhe, o nosso homem bom


Chega com a sua maquia,


Coloca-a num monte por inteiro:


“Meus amigos, disse ele, vocês vêem este dinheiro:


Desde que ele me pertence, eu já não sou o mesmo,


A minha alma endureceu, e a voz da desgraça


Não penetra mais no meu coração.


Meus filhos, salvem-me deste perigo extremo;


Levem e partilhem este perigoso metal;


Cada um leve a sua parte para o seu asilo:


Dividido entre todos, pode ser útil este ouro;


Reunido em um só, não faz senão mal.


É fatal!


Com o suficiente nos bastemos,


Sem tesouros supérfluos jamais desejarmos:


É preciso temê-los,


Tanto como a miséria tememos.


Como esta, eles expulsam as virtudes habituais


Ancestrais.


Não o consintamos”


 


Ora aqui está uma história tão moral


Que parece irreal,


Escrita numa época em que a libertinagem


Até fora descrita com muita coragem


Num século de revolução,


Por Choderlos de Laclos, por exemplo,


Que tão bem soube traduzir a vilania


De cada sua personagem.


Mas Florian docemente,


Mostrou o homem bom que a tentação seduziu


Eventualmente,


Mas que morreu após reflexão


Provinda de um nobre coração.


Hoje em dia, a tal distribuição do dinheiro achado


- Mas logo surgiria


Alguém que com descortesia


O dissesse antes roubado –


Pura irrealidade seria,


Pois se fosse hoje, ninguém o teria dado


Ou distribuído


E só tirado.


O mesmo eu não diria


Na questão da aquisição,


Do cargo de presidente,


Ou outra qualquer benesse,


Por conta de capital


Ou qualquer outra valia


Implícitos nessa operação de aquisição


- Bem antiga por sinal


E sempre à mão.


Quanto à história do bom senhor salvador


De uma fábula de responsabilização


Para bem da nação,


Ela não serve de aviso à nossa navegação,


Habituada de longa data esforçada,


Como sina,


A uma navegação à bolina


E de bandeira esfarrapada.


 


 Berta Brás

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