A bem da Nação

PODERES MEDIÚNICOS

 


 


Assim como o alfabeto foi inventado por um analfabeto, também a filosofia tem avançado muito pela cabeça de não filósofos e relativamente pouco pelas de profissionais da filosofia. Os profissionais da filosofia perdem-se lá pelo meio do muito conhecimento sobre o que outros pensaram e ficam sem tempo para pensarem por si próprios.


 


 


O caso mais evidente do que afirmo é Karl Popper cuja formação base na Universidade de Viena fora em Ciências da Natureza (a que se seguiu, refira-se em completo abono da verdade, um Doutoramento em Filosofia). Retenho uma frase que lhe li na sua «Busca Inacabada – Autobiografia Intelectual» em que afirma que «a Teologia é devida à falta de fé» [1]. Sim, a Teologia explica Deus mas quem tem fé não precisa de explicações e a quem a não tenha não há explicações que bastem. E assim Popper conclui pela inutilidade da explicação teológica. Ou seja, como diz o povo, «a fé move montanhas».


 


 


 


Da entrevista do Papa Francisco às revistas da Companhia de Jesus [2], respigo: - (...) se se quiser saber quem é [Maria], pergunta-se aos teólogos; se se quiser saber como amá-la, é necessário perguntá-lo ao povo.


 


E porque a emoção (dogmática) e a racionalidade (teológica) nada têm de comum (nem sequer cabem na mesma zona do cérebro humano), admito que a frieza racional poucos adeptos consiga ganhar em matérias de forte pendor emotivo: a racionalidade não substitui o dogma nem conquista almas.


 



Assim, o meu Avô, Tomás da Fonseca, que se dizia ateu, disse-me que provocou grande escândalo junto dos seus correligionários republicanos (muitos dos quais jacobinos confessos) quando, visitando o Santuário de Lourdes, se emocionou até às lágrimas. Porquê? Porque viu a fé.


 


Isto me disse ele próprio.


 


E respigo novamente algumas palavras do Papa na mesma entrevista: - A imagem da Igreja de que gosto é a do povo santo e fiel de Deus. (...) Na história da salvação, Deus salvou um povo. Não existe plena identidade sem pertença a um povo. (...) O povo é sujeito. E a Igreja é o povo de Deus a caminho na história, com alegrias e dores. (...) O conjunto dos fiéis é infalível no crer (...) Quando o diálogo entre as pessoas, o bispo e o Papa segue este caminho e é leal, então é assistido pelo Espírito Santo. Não é, portanto, um sentir ligado aos teólogos. (...) Existe uma “classe média da santidade” da qual todos podemos fazer parte.


 


Que Igreja tão diferente, esta, que pretende lidar com um povo culto e de fé erudita, da que existia no tempo em que Tomás da Fonseca a acusou de subjugar o povo pela ignorância e pelo medo da ira divina.


 


O que pensaria hoje esse ateu declarado? Não sei. Não tenho poderes mediúnicos.


 


Lisboa, Outubro de 2013


 


 


Henrique Salles da Fonseca






[1] Pág. 32 op. cit. Ed. ESFERA DO CAOS, 1ª edição, Fevereiro de 2008




[2] BROTÉRIA, Agosto/Setembro de 2013, pág. 112 e seg.



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