Notícias veiculadas recentemente na mídia têm levado a público o retorno de uma actividade milenar: a pirataria. O palco, o mar, lugar de difícil controle, os actores, os somali, povo sofrido que passa por enormes dificuldades de pão e de governação desde a queda da ditadura de Mohamed Siad Barre em 1991. Dizem que o que fazem no mar é consequência dos problemas que passam em terra. Porém, não deve ser essa a saída. Seria corrigir um erro com outro erro. Provavelmente a resposta seria devolver-lhes a cidadania. E para isso seria preciso muito trabalho e vontade política, coisa que vai contra interesses de gente que não se importa com a miséria que aflige esse povo.
Segundo Peter Lehr, especialista em estudos de pirataria da Universidade St. Andrews na Escócia, a actividade começou com assaltos a cargueiros de um pequeno número de pobres pescadores que viram suas águas contaminadas e sua comunidade arrasada. Com o sucesso da empreitada, passaram a ser patrocinados, com armas sofisticadas, por homens sem lei, que viram a oportunidade de ganho fácil. Hoje, com tanto lucro, são os piratas que financiam os homens de guerra da Somália. Nas cidades base das operações piratas, EYL e HARARDERE, mansões e carrões são ostentados pelos somalis que se utilizam desse meio de vida, contrastando enormemente com o resto da população que vive na pobreza, à espera de ajuda externa. (Revista Veja 22 abril/2009, pg 82).
Mas a costa berbere (Tunísia, Argel e Marrocos) tem história antiga de pirataria. Do século XVI ao século XVIII, essa gente cruenta e destemida frequentou as águas do Mediterrâneo e do Atlântico, à caça de riquezas e de cristãos. Pilhavam e levavam cativos para o comércio de escravos ou para futuro resgate, em geral pago pela Fazenda das Coroas Cristãs, pela Igreja e pelos próprios reféns ou /e família.
Após o descobrimento do caminho marítimo para Índias, as rotas e as paragens das naus, abarrotadas de riquezas, ficaram muito visadas. Portugal e Espanha eram as vitimas preferidas daqueles tempos. Os motivos eram vários. A disputa pela soberania nos mares, a expulsão dos mouros e judeus da Espanha, com a formação de um grupo de gente sem eira e nem beira, a eterna guerra entre cristianismo e o islanismo, a "exclusividade" na exploração das riquezas do Novo Mundo.
Quando os paises ibéricos passaram a ser regidos pela mesma Coroa, os portugueses passaram também a sofrer ataques dos inimigos dos Filipes. Eram os protestantes do norte, os mouros e judeus do mediterrâneo, que passaram a espreitar e a assaltar as rotas atlânticas e a periferia portuguesa, ponto mais vulnerável e desprotegido do reino. Foi assim que os Açores se
tornaram alvo da pirataria. Quando não conseguiam a gorda presa que vinha das Índias ou das Américas, os piratas, que ficavam longos períodos à espreita no mar, às vezes contentavam-se em saquear as desprotegidas ilhas, quando estas não se associavam a eles, com ajuda de água e víveres. Como no caso exemplar da Ilha das Flores, quando o capitão-mor Tomé de Fraga deu sua filha em casamento, por amor ou por necessidade, ao corsário Peter Easton, quando este frequentava as águas florentinas. E o que dizer de um vigário do Corvo, que à troca de generosas moedas de ouro, não hesitou em desobedecer às ordens régias e abasteceu o navio do pirata Almeidinha.
Os tempos passaram, os danos materiais e humanos foram imensos, mas a pirataria continua sendo o recurso marginal de
românticos, governos e empresas, para explorar os mais vulneráveis, para atingir os seus intentos ou chegar ao lucro fácil, sempre sob a égide da coação e do medo.
Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 12/05/09
Dados:
Revista Veja 22/04/09
O Faial e a Periferia Açoriana (dos séculos XV a XIX)
Ilha das Flores: da redescoberta à atualidade (Francisco Antonio Nunes Pimentel Gomes).