Foi em 1964, pelos seus 28 anos de idade, que o Padre Jorge Bergoglio ensinou literatura nos dois últimos anos do Liceu no Colegio de la Inmaculata Concepción em Santa Fé[1].
Encaminhando os alunos para a escrita criativa, sigamos a narrativa do Papa Francisco:
Foi uma coisa um pouco arriscada. Devia fazer de tal modo que os meus alunos estudassem «El Cid». Mas os rapazes não gostavam. Pediam-me para ler Garcia Lorca. Então decidi que deveriam estudar «El Cid» em casa e durante as lições eu trataria os autores de que os rapazes mais gostavam. Obviamente, os jovens queriam ler as obras literárias mais “picantes”, contemporâneas como «La casada infiel» ou clássicas como «La Celestina» de Fernando de Rojas. Mas ao ler estas coisas que os atraíam naquele momento, ganhavam mais gosto em geral pela literatura, pela poesia e passavam a outros autores. Para mim, esta foi uma grande experiência. Cumpri o programa mas de modo desestruturado, isto é, não ordenado segundo aquilo que estava previsto, mas segundo uma ordem que resultava natural da leitura dos autores. E esta modalidade tinha muito que ver comigo: não gostava de fazer uma programação rígida, mas eventualmente saber mais ou menos onde chegar. Então comecei também a fazê-los escrever. No final decidi dar a ler a Borges[2] dois contos escritos pelos meus rapazes. Conhecia a sua secretária, que tinha sido a minha professora de piano. Borges gostou muitíssimo e então ele propôs escrever a introdução de uma colectânea.
Perguntar-se-á agora o que chamou a minha atenção em história tão plausível e, quase diria, banal...
Inesperadamente, o que chamou a minha atenção foi aquela Senhora que secretariava um escritor da envergadura universal de Jorge Luis Borges e que foi professora de piano dum futuro Papa.
Dá para imaginar a estatura humana e cultural daquela porteña anónima? Quantas pessoas assim fantásticas andarão por aí escondidas e esquecidas? E quem era ela?
Perguntem ao Papa!
Lisboa, Outubro de 2013
BIBLIOGRAFIA:
In “Entrevista exclusiva do Papa Francisco às revistas da Companhia de Jesus”, António Spadaro, SJ, BROTÉRIA – Agosto/Setembro de 2013, pág. 112 e seg.
[2] Jorge Luís Borges, primeiro laureado com o Prémio Formentor de Literatura em 1961
RESPOSTA:
Ou perguntem-me a mim, que estou mais à mão. Enquanto foi viva, e salvo o curto interregno de um curtíssimo casamento, era a mãe que o apoiava em tudo. Dela dependia para o dia a dia. Após o falecimento de sua mãe, Borges ficou ao cuidado de duas amigas de longa data, também elas escritoras. Até que apareceu a Kodama, sua aluna de Inglês Antigo na Universidade.

