Na memória do Homem, registrado numa emaranhada e complexa rede de neurônios que se intercomunicam em flashes elétricos, o perfume tem a capacidade de despertar sensações, sentimentos ou recordações, provocando mudanças no nosso estado de espírito. Quem já não se lembrou de alguém ou alguma coisa ao sentir um determinado perfume? Ele é usado pelo animal e pelo o homem desde os tempos ancestrais para demarcar terreno, alertar do perigo e mostrar cio, como repelente ou atrativo. Dá prazer, desprezo, repulsa ou relaxamento. Aguça os sentidos, é fundamental nos jogos amorosos da conquista. Quando a mulher quer seduzir se enfeita e perfuma. Quando o homem quer agradar presenteia com um perfume. Não é sem razão que a história da humanidade destaca e relata o uso dos incensos para desinfetar e perfumar o ar das igrejas medievais ou dos ambientes fechados, como dos hospitais. Quem já não ouviu falar dos banhos aromáticos com pétalas de flores para combater o estresse, relaxar e induzir ao sono?
Da natureza rica em cheiros, aprendemos a tirar e a utilizar os perfumes para tratamento, encanto e deleite humanos. As Cleópatras de ontem e as de hoje sabem bem o poder de atração que eles têm.
Os maus odores das gentes e cidades urbanas antigas eram disfarçados pelas poções cheirosas produzidas pelos alquimistas. O perfume diferenciava o rico do pobre, o nobre da plebe. Nas casas abastadas e educadas misturava-se flores, sementes e ervas aromáticas em pequenos saquinhos e colocava-se entre as roupas e guardados para lhes dar cheiro agradável. Lencinhos, cartas e correspondências, eram sutilmente perfumados para lembrar do seu portador ou remetente. Perfumar-se era sinal de dignidade e higiene, ou pelo menos dava idéia de limpeza.
Nos séculos XVIII e XIX, cheirar tabaco moído era costume popular que provocava espirros, na tentativa de desobstruir as vias respiratórias, para combater resfriados e melhorar a respiração, coisa nem sempre conseguida... Qual o sexagenário de hoje que não se lembra de um avô ou avó portando uma jeitosa caixinha de rapé?
No oriente e em países da Europa, como a França, o comercio de perfume ficou tão importante economicamente que se passou a cultivar flores para alimentar a perfumaria. Pesquisava-se e testava-se substancias orgânicas, como o espermacete da baleia, as pedras da vesícula do boi, glândulas de animais, capazes de dar compostos odoríficos marcantes, quando misturados às flores, frutos, e resinas de árvores e plantas. Descobriu-se, assim, os fixadores de odores, que tornaram os perfumes mais ativos, duradouros e caros. Apareceram combinações e formulações químicas secretas. Às soluções cheirosas acrescentaram tons e cores, tudo lindamente engarrafado em vidros e frascos especialmente confeccionados com capricho e estilo para agradar a todos os bolsos e gostos. Nascia da experimental e secular alquimia a indústria moderna e lucrativa do perfume. Usá-lo com sabedoria e parcimônia passou a ser, mais uma vez, sinal de distinção, bom gosto e categoria social. Os artistas populares quando propagavam algum davam charme e prestigio ao produto. Surgia o marketing comercial que valorizava e enriquecia ainda mais a perfumaria.
Afinal, quem não repara em alguém ou algo que exala um bom (ou mau) perfume?
Uberaba, 09/03/08
