DA POLÍTICA E DO CONFLITO
Antes de mais, gostaria de felicitar Henrique Salles da Fonseca por ter conseguido criar no seu blogue um espaço de reflexão que ajuda a formar na gente lusa este salutar hábito a que é, de seu natural, avessa.
Vejo que o tema metodologia da decisão em caso de conflito despertou interesse. Confirma-se portanto que não representa capricho de erudição mas sim matéria que a todos interessa esclarecer. Henrique Salles da Fonseca, na sua contribuição, abriu uma via de consideração do assunto potencialmente prometedora.
"O ditador – aquele que dita ordens sem permitir qualquer discussão sobre a bondade dessas mesmas – … é colhido na grande contradição da dinâmica económica em que o progresso fomenta a solidificação duma classe média burguesa, poupada ou gastadora mas tendencialmente culta e, portanto, mentalmente independente e que não gosta que pensem por si".
Conclui-se portanto que a decisão tomada a solo não só não resolve como alarga o conflito. Daqui não se pode contudo depreender a contrária, seja que a consulta levaria à boa solução, nem me parece que o autor tenha tido tal intenção. Com efeito, a experiência mostra que a decisão política é sempre má, qualquer que seja a qualidade dos intervenientes. Isto acontece porque o político (individual ou grupal) toma a decisão que o ajuda a conservar/dilatar o seu poder e não a que poderia servir à resolução do assunto. A diferença entre o ditador e o democrata reside apenas no facto de que o primeiro, para conservar e dilatar o seu poder, pensa em termos de prestígio e força física, enquanto o segundo preocupa-se principalmente com a reacção do eleitorado (o seu eleitorado). Se a consulta fosse feita à elite que "não gosta que pensem por si" a qualidade da decisão não melhoraria pois a elite decidiria em função dos seus interesses.
| Søren Aabye Kierkegaard | |
| Retrato de Kierkegaard em 1840 | |
| Nascimento | 5 de maio de 1813 |
|---|---|
| Falecimento | 11 de novembro de 1855 |
Como disse o filósofo dinamarquês Kierkegaard - o homem que percebeu que "a verdade está na subjectividade" -, o momento da decisão é sempre um momento de loucura, porquanto os agentes deliberam fora do quadro das razões compatíveis ou "compatibilizáveis". Como tal, a metodologia conveniente da decisão mantém-se obscura. Temos que seguir o conselho de Popper: - examinar todas as propostas metodológicas para, por eliminação, chegar a formar uma ideia da conveniente.
Fica para o próximo número. Não esqueceremos contudo a subjectividade keirkegaardiana.
17 de Junho de 2009
PS: - Kierkegaard quer dizer jardim da igreja. Nome bonito para um filósofo.