A Via Cruel, por E. Andreeva
Muitos fanáticos religiosos odiaram o czar-inovador, lutaram contra as suas reformas e consideraram-no o anti-cristo. A coisa foi difícil em especial com os Raskólnikov ou Velhos Crentes. Segundo a opinião deles, o cristianismo e seu culto, recebidos pela velha Russ', deviam ficar eternamente inalterados. Contudo, durante séculos ocorreram alterações; na cópia dos livros sagrados muitos monges semi-analfabetos cometeram erros. Nos livros introduziram-se distorsões, e frequentemente o seu texto se tornara completamente sem sentido. Quando surgiu a imprensa, esses erros foram mantidos nas edições impressas.Por causa disso, até se distorceram alguns rituais. Quando chegavam eclesiáticos gregos, eles ficavam espantados. E, em particular, a eles não agradava o ritual do sinal da cruz feito com dois dedos, em vez de três, como fora aceite por toda a Ortodoxia oriental.
Nesta questão tomou a iniciativa o patriarca Nikon, que sem rodeios impôs a reforma eclesial. Introduziu novamentre o sinal da cruz grego com os três dedos, confiscou todos os ícones que não fossem genuinamente bizantinos. Ordenou que fosem trazidos da Grécia os livros do serviço religioso e por eles corrigidos os russos. Os popes, que conheciam de cor muitos textos, não os reconheciam nos livros agora impressos. Começaram os protestos, a reforma era censurada, a Nikon chamavam "iconoclasta" e "segundo papa". Mas Nikon mandou para o exílio os seus piores adversários e continuou o seu trabalho. Os renitentes da velha fé não se acalmaram no exílio e continuaram a vituperar com violência os "nikoneanos".
Depois da destituição de Nikon muitos popes exilados voltaram para Moscovo. A ele aderiu a pobreza rural e seus dependentes, protestando de igual modo contra o chicote e a injustiça. Os impostos e a servidão aumentavam constantemente. As guerras permanentes, e ainda peste, que se propagava por todo o país, levavam o povo ao desespero, e desde os meados e do século XVII e até ao seu fim, as revoltas sucediam-se ininterruptamente. A bem característica luta pela liberdade e contra a servidão foi servida pelo movimento a favor da velha crença. Este foi um protesto do povo contra a igreja como defensora da estrutura social, como servidora do czar, dos boiares e dos senhores das terras.
No Concílio em 1666 Nikon foi desautorizado, mas a sua reforma eclesial foi reconhecida correcta e os paskólnini foram considerados uma praga para a igreja -- um anátema"...
Não mais! Não mais... (como diria Camões), que estou cansado...
Joaquim Reis
