ACHA QUE TEMOS LICENCIADOS A MAIS?
Parte 4
Assim como medimos regularmente a relação entre a Formação Bruta de Capital Fixo e o crescimento do PIB, também devíamos começar a comparar o esforço nacional na Formação Bruta de Capital Humano e o progresso intelectual e técnicoprofissional dos portugueses. É que se assim não for, arriscamo-nos a transformar a Formação Bruta de Capital Humano em formação de carne bruta para canhão. Creio que os executantes destas políticas andam muito soltos e ninguém lhes pede responsabilidades. Não andarão a esbanjar gerações? Veja-se o autêntico escândalo que os Professores quiseram fazer do início da medição dos resultados obtidos por cada Escola; como se isso fosse crime de lesa Pátria; como se os grandes educadores do povo estivessem porventura acima de qualquer suspeita. Bem: só para se ter um pequeno laivo dos resultados, chamo a atenção para a diferença apurada nas 619 Escolas Secundárias públicas e privadas no ano lectivo 2001-2002 entre as Classificações nos Exames Nacionais e as Classificações Internas. A diferença negativa significava que as notas obtidas pelos alunos nos exames nacionais eram inferiores às notas dadas internamente pelos Professores da Escola; isto significava uma menos-valia da Escola. Se a diferença fosse positiva, a leitura era a contrária: a Escola tinha sido mais exigente que os exames nacionais e, portanto, devia ser considerada uma melhor Escola. A média aritmética das 619 Escolas foi de -1,96 e o intervalo foi do Máximo 3,3 no Colégio do Sagrado Coração de Maria, em Lisboa, ao mínimo -6,8 em Ferreira do Zêzere. Como se pode facilmente depreender dos resultados, houve um generalizado inflacionamento das notas internas. Para não falar de irresponsabilidade, digo que houve uma volatilidade geral até que chegou a hora da verdade e se instalou a desilusão. Quando, como em 2007, este laxismo passou a ser promovido a política oficial com uma evidente redução do nível de exigência nos exames oficiais, então temos que concluir que a débacle se instalou.
Apesar deste cenário, ainda há quem tenha a suficiente força de vontade para chegar à Universidade e até mesmo quem escolha áreas científicas e tecnológicas.
Recorrendo aos elementos compilados no European Innovation Scoreboard 2002, em 1999 Portugal tinha no grupo etário dos 20 << 29 anos 5,5 % de diplomados em Ciências e Tecnologia enquanto no Japão havia 11,2%, nos EUA 8,1% e em Inglaterra havia o máximo europeu de 17,8%. Diz-se ali também que em 2000 a percentagem da população activa com diploma pós-secundário era em Portugal de 9,8% enquanto o Japão tinha 30,4%, os EUA 34,9% e o máximo europeu se verificava na Finlândia com 32,4%; que em 1999 o EPO (European Patent Office) registou 0,4 patentes de alta tecnologia por milhão de residentes em Portugal, 29,5 por igual número de americanos, 27,4 por milhão de japoneses e novamente um máximo europeu obtido na Finlândia com o assombroso número de 80,4 patentes por milhão de residentes. Sim, somos muitos os portugueses que temos um telemóvel finlandês mas poucos serão os finlandeses que comem sardinhas portuguesas de conserva…
De acordo com o EUROSTAT, em 2006 a escolarização total (qualquer grau de ensino) do grupo etário dos 18 anos era como segue:
Suécia 94,6
França 78,8
Espanha 70.
PORTUGAL 66,7%
EUA 62,7
Surpreendente a baixa escolarização americana. Contudo, com o mal dos outros podemos nós bem…
Creio que basta de ilustração circunstancial para demonstrar tanta falta de ilustração nacional.
Não me restam dúvidas de que só com a valorização sistemática dos recursos humanos se consegue alcançar o desenvolvimento económico e só se este existir é que se pode alcançar o tão reclamado conforto material. Enunciado este silogismo, colhe afirmar que a qualidade dos recursos humanos é a essência do desenvolvimento.
Para já, podemos concluir que
NÃO TEMOS LICENCIADOS A MAIS
Resta saber se ministramos em Portugal as licenciaturas de que o nosso desenvolvimento carece.
(Continua)
Lisboa, Outubro de 2008
Henrique Salles da Fonseca