ACHA QUE HÁ LICENCIADOS A MAIS?
Parte 2

Vejamos então o nosso perfil geral.
Uma das pechas mais graves que se nos apresenta é a do analfabetismo.Analfabeto estatístico é o maior de 10 anos de idade que não sabe ler nem escrever mas durante alguns anos houve quem considerasse que analfabeto era quem não soubesse assinar. Desenhar o nome, diria eu.
Notemos que em 1974 a taxa de analfabetismo estatístico era de 25% da população. Se hoje nos espantamos com este facto histórico, devemos perguntar-nos também se estamos a tratar de uma realidade com interesse para os níveis de vida actuais ou se estamos a falar de arqueologia social. O que fazermos? Esquecer os analfabetos e partir para outra...? Não será essa uma forma de encolher ainda mais o País? Então estamos a querer aumentar o mercado interno e acabamos por o encolher? Que fazer?
Continuo a crer que é necessário continuar os esforços de alfabetização de adultos mas não tenho dúvidas nenhumas de que esse esforço não é minimamente suficiente para alcançarmos os nossos objectivos. Necessário mas não suficiente. Porquê? Porque estamos cada vez mais a receber no mercado de trabalho jovens – quiçá universitários – oriundos de ambientes analfabetos e esse é um gap que tem que ser sistematicamente reduzido. Claro que os anciãos constituem hoje aquilo que podemos chamar de uma geração perdida para o desenvolvimento moderno mas não podemos esquecer que sempre constituem o enquadramento social (e de referência familiar) a muitos jovens e outros já menos jovens mas em plena idade produtiva.
Como seres pensantes que divagamos sobre os temas do desenvolvimento, não temos o direito de esquecer esses mais impreparados. Não podemos deixar que em Portugal o combate ao analfabetismo adulto seja liderado pelas agências funerárias.
Na outra ponta do espectro da formação cultural e profissional, o que se passa?
Passa-se que temos a mais baixa taxa de população adulta com formação superior, incluindo Sacerdotes e Oficiais das Forças Armadas e de Segurança. E porquê? Uma das razões que podemos imediatamente apontar tem a ver com a enorme taxa de abandono escolar, ao nível dos 36,3% em 2006, conforme declarações da Ministra da Educação à Rádio Renascença em 5 de Setembro de 2007.
Qual a razão de um tal descalabro? Deve haver várias, nomeadamente a pressão exercida pela necessidade de angariação de meios de subsistência. Face ao grupo etário em apreço, não falamos de trabalho infantil; falamos de jovens que já estão na idade legal de trabalho mas que pura e simplesmente desistem de estudar antes de concluírem o ensino obrigatório. Face às exigências do mercado de trabalho para que queremos evoluir, trata-se de analfabetos funcionais em potência, ou seja, aqueles que – sabendo formalmente ler e escrever – não conseguem compor e redigir correctamente uma pequena carta solicitando um emprego ou interpretar a informação contida na papeleta de um medicamento quanto à posologia adequada. A informação estrangeira mais recente de que dispomos[1] é a seguinte:
República Checa = 6,1% (2004)
Dinamarca = 8,1% (2004)
Reino Unido = 15,7% (2004)
Itália = 23,5% (2004)
Espanha = 30,4% (2004)
PORTUGAL = 36,3 (2006)
Fica por saber o que sucederia se medíssemos a alfabetização funcional avançada que corresponde à capacidade de ler um texto demonstrando que o entendeu pela redacção de um novo texto sintético. Para piorar as coisas, convenhamos que um dos parâmetros mais subtis e que mais estragos nos poderá causar consiste no analfabetismo científico, ou seja, na medição da ignorância relativa aos conhecimentos mais básicos da Ciência e da Tecnologia de que qualquer pessoa necessita para sobreviver razoavelmente numa sociedade moderna. Curiosamente, o ensino de Ciências no 1º e no 2º ciclos assenta nos princípios básicos da biologia, da física, da química, etc., – o que corresponde a conhecimentos bem distantes do quotidiano das pessoas – mas esquecendo a explicação de outras coisas de bem maior relevância tais como o motor de explosão, a lâmpada, a televisão, a Sida, o rolamento de esferas. Resulta assim uma grande desmotivação da juventude para aquilo que lhe querem ensinar numa escola que nada tem a ver com a realidade da vida. Eis como surge aquele preocupante abandono escolar e, na população escolar que persiste, um enorme insucesso. Temos que nos colocar a questão: - Quem está mal? A população escolar ou a Escola? A resposta tem que se inspirar na anedota sobre os tempos soviéticos: O povo não concorda com o Soviete Supremo. Temos que mudar de povo!
(continua)
Lisboa, Setembro de 2008
Henrique Salles da Fonseca