Mexendo apenas os olhos, talvez alguém me tenha tomado por homem-estátua mas na verdade nada fiz por isso. Estava eu muito mais interessado em ver do que em ser visto. E por isso parei de costas voltadas para a montra duma sapataria, ali bem no centro do bulício na praça central. Houve mesmo quem viesse olhar para os sapatos e botas a trás de mim e fizesse comentários quase ao meu ouvido como se eu tivesse alguma coisa a ver com o assunto. Mas não lhes dando troco, logo percebiam que eu não estava virado para a conversa.
E no meio da multidão vi grupos risonhos, sisudos, brancos, mistos e pretos mas também vi um ou outro parecendo isolado. Poucos, os que se exibiam; a maioria passava com naturalidade e até havia os que passeavam. Por mim passou gente que aparentava aquela erudição que se banqueteia na livraria à minha direita, os que iam comprar berloques na loja à minha frente, os que exibiam o cós das cuecas e as calças descaídas os 17 centímetros da praxe com o gancho a roçar os joelhos. Passou gente elegante mas também vi um entrevado em cadeira de rodas vestido a rigor com um fato de treino, caso que de imediato elegi como a melhor definição de paradoxo.
Foi assim que voltei a pensar no conceito do universo antropocêntrico. Mais concretamente, no universo egocêntrico. Cada um daqueles que passava à minha frente correspondia a um universo autónomo. Eu próprio sou o centro do meu próprio universo e por muita afinidade que tenha – e tenho – por quem me rodeia, nomeadamente a família, eu sou eu e nada tenho intrinsecamente a ver com outra pessoa. Quando eu desaparecer toda a minha relatividade desaparece. E a minha relatividade é a definição do meu universo.
Parei e por nada esperei: observei os passantes lembrando-me daquela frase do Padre Manuel Antunes em que ele referia «o esplendor sem limites do mistério da nossa existência comum»[1]. E notei que os universos se cruzavam com milímetros de distância, que casais andavam de braço-dado, que pais davam a mão a filhos, que muitos – quase todos – se cruzavam ignorando-se mas cada um tinha, consciente ou inconscientemente, uma relatividade própria que ia desde a nano-dimensão do seu interior físico até à escala inter-galáctica porque tudo isso tem um centro: o espírito de cada um. E por muito insignificante que o personagem possa ser, por muito despercebido que passe, é contudo o centro de um universo que ele pode crer finito mas que na realidade é infinito.
Sim, sendo o Universo infinito, o universo individual de que cada um de nós é o respectivo centro, é igualmente infinito. E não pode ser finito porque se assim fosse, então isso significava que o limite só existiria para determinar que tudo acabaria ali. Mas se para além daquele limite nada existisse, então o limite não existiria também porque uma parte de si já estaria no âmbito da inexistência e como uma metade só pode existir em função da outra metade, então isso quer dizer que o lado inexistente, afinal, existiria. E se existia, então isso significava que, afinal, daquele lado alguma coisa existia. E se existia ali alguma coisa, então o limite não era real. Um limite irreal é a ausência de limite e o que não tem limite é porque é ilimitado. Ou seja, o universo individual é ilimitado porque não o conseguimos medir nem lhe concebemos o limite. E mais do que dispormos ou não da capacidade para nele nos movermos em tempo útil, colhem os conceitos de finito, de infinito e de tempo para podermos esperar pelo dia em que os nossos sucessores consigam ir mais além no domínio de tais conceitos.
A função espaço-tempo é um tema tão bom como qualquer outro para se pensar de costas voltadas para a montra duma sapataria em frente da qual passam universos infinitos que esplendorosamente convivem … ou pacatamente se ignoram. Mas chegado a casa decidi aprender alguma coisa mais concreta sobre o tema e fui à Wikipedia. Encontrei muita informação e decidi-me por uma que me pareceu mais acessível:
Frustrado, concluí que ainda tenho muito que aprender para perceber a introdução ao tema…
Dezembro de 2008
[1] - Faria Blanc, Mafalda – MEMÓRIA DE ESTUDANTE, in "Ao encontro da Palavra – homenagem a Manuel Antunes", Edições Cosmos, 1985