A bem da Nação

Pai com força só na fábula

 


 


Os fabulistas foram jovens também.


Foi-o Florian, que bem sabia


Quanto a juventude


Precisa de um pai e de uma mãe


Para ganhar mais virtude


Em cada dia.


Os bons princípios provêm, naturalmente,


Do seio da família,


Mas diz-se que hoje em dia


Tal asserção é menos real


Pois muitas coisas se modificaram


Tantas aberturas se fizeram


Para se fruir em liberdade


De maior capacidade


Individual.


É claro que tanta desenvoltura


Que tantas vezes redunda em amargura


A sociedade contribui para ela


Não só pela sua falta de compostura,


Como pelos efeitos perversos


Que o progresso exerce sobre ela.


Mas no tempo de Florian


Ele não era tão evidente,


Por isso Florian acreditava na moral


Da fábula tradicional,


Como mostra na fábula seguinte


Bem do seu gosto


De homem educado,


Segundo os valores dos seus maiores:


 


 


 


«O Cavalo e o Potro»


 


Um bom pai Cavalo, viúvo, e com apenas uma cria,


Criava-a num prado de pastagem,


Onde águas, flores e sombras da folhagem,


Todos esses bens em simultâneo reunia.


Abusando no seu divertimento


Como é costume da tenra idade,


O potro todos os dias comia


O feno em demasia,


Espojava-se na erva florida


Galopando ao Deus dará,


Banhando-se sem vontade,


Ou descansando sem necessidade.


Ocioso e gordo até mais não,


O jovem solitário aborreceu-se;


De tudo ter em excesso se cansou,


O desgosto dele se apoderou,


Foi procurar seu pai, em acusação:


“Há muito, disse ele, que de bem não sinto nada;


Esta erva é malsã e dá cabo de mim,


Este trevo insípido, a água inquinada


O ar que se respira ataca-me os pulmões,


Em suma, com todas estas razões


Ficarei em perigo


Se daqui não partirmos logo.”


“Meu filho, responde-lhe o pai,


Trata-se da tua vida,


Partamos imediatamente”.


Meu dito, meu feito,


Deixam o lar de seguida,


O jovem viajante a pular de prazer.


O velho, menos contente,


Ia a passo, moderadamente,


Mas guiava a criança e deixava-a trepar


Sobre montes escarpados, áridos, sem erva,


Onde nada o podia sustentar.


Chegada a noite, pasto nem vê-lo;


Passaram sem ele; no dia seguinte,


Como a fome começava a apertar,


Com a ponta dos dentes roeram


Uma silva selvagem;


Não se galopou mais no resto da viagem;


Dois dias depois mal podiam ir a passo.


Julgando então a lição dada,


O pai toma uma via secreta


Que o filho desconhecia,


E, a meio da noite,


Leva-o para a pradaria.


Mal o nosso potro


Encontra uma erva florida,


Lança-se sobre ela: “Ah! Que festim excelente!


Que boa erva! disse ele! Como é suave e tenra!


Meu pai! Não precisamos de esperar


Para encontrar melhor lugar;


Fixemo-nos para sempre


Sobre estes amáveis sítios: Que terra pode ser melhor


Do que este asilo campestre


Da esfera terrestre?


Enquanto assim falava


Eis que o dia surgiu:


O potro, o prado que deixara


Reconheceu.


Ficou confundido. O pai, com calma bondade,


Diz-lhe: “Meu filho, aprende esta máxima comigo,


Do conhecimento antigo: “Quem goza demais na vida


Depressa se aborrece de tanta facilidade.


É preciso pensar em regime


Como fonte de felicidade.


 


Também nós aqui


Tivemos o nosso prado


Onde nos repoltreámos livremente.


Mas ao contrário do potro da fábula,


Que se cansou dos excessos de que gozou,


E aprendeu com a lição do pai


A moderação,


Fomos insaciáveis e queremos


Continuar imoderadamente,


No direito como obrigação,


No dever como exclusão.


 


Não há pai,


Cavalo ou não,


Que assim consiga


Salvar tal nação


Que assim se vai...


 


 


 Berta Brás


 


 

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