Eu – Já cá estou de volta.
Ela – E que lhe disse a bola de cristal?
Eu – Que o Ronaldo vai ganhar a 3ª Bola de Ouro.
Ela – Não, a sério, o que disse ela sobre o futuro da Grécia?
Eu – Não disse nada porque não tenho bola nenhuma de cristal e se tivesse não a saberia consultar sobre nada. Já viu alguma vez uma bola de cristal ou de qualquer outra coisa adivinhar o futuro?
Ela – Não, nunca vi. Mas Você falou com tanta convicção...
Eu – Figuras de retórica sempre dão jeito quando não sabemos como desembrulhar um problema.
Ela – Então isso significa que Você não sabe como vai acabar o problema grego.
Eu – Então isso significa que eu não sei como vai acabar o problema grego. Mas posso fazer alguns exercícios especulativos.
Ela – Muito bem, então vamos lá a isso! Estávamos nas senhas de racionamento.
Eu – Isso só acontecerá num cenário de ruptura com o Euro e eu julgo que o sentido maioritário do voto grego não foi por aí.
Ela – Então, esse cenário de ruptura com o Euro seria contrário ao sentido do voto grego.
Eu – Sim! A partir do que li e ouvi na comunicação social, foi esse o sentido que registei.
Ela – Mas o Tsipras e o Varoufakis ameaçam com a saída do Euro.
Eu – Sim mas, a ser como eu percebi e democraticamente falando, essa saída não faz sentido. E, depois, repare que o problema grego não tem tanto a ver com o Euro propriamente dito como com os critérios de Maastricht. Uma dívida que não ultrapasse os 60% do PIB e um défice que não ultrapasse os 3% exigem um esforço de contracção muito grande e isso não é exequível sem alguma convulsão social. Pagar impostos? Pagar os transportes públicos? Prescindir dum emprego público conseguido sabe-se lá com base em que critérios...? Retirar a pensão vitalícia às filhas dos funcionários públicos que ficaram órfãs na meninice? Os vícios de parasitismo são tão antigos que já se tornaram uma característica da sociedade grega. Mas nós também temos uns quantos por cá que se fartam de falar nos direitos adquiridos. Só que os de cá foram adquiridos por via revolucionária e os de lá vêm sobretudo do tempo da queda do Império Otomano em que a monarquia grega, para voltar ao poder, teve que «comprar» os súbditos, tanto os antigos da velha Grécia como os novos dos territórios que então deixavam de ser governados pela Grande Porta. E se não lhes satisfizessem todas as reivindicações, eram eles, os alemães da Casa de Schleswig Holstein Sonderburg Glücksburg, que ficavam sem trono. Então, vá de gastar o dinheiro que não existia para garantir o reino. Ou a reinação, se quiser.
Ela – E a reinação continuou nos tempos da República...
Eu – E VIVA A REPÚBLICA!!!
Ela – Então, como é que o Tsipras vai resolver o problema que tem nos braços?
Eu – Acabando com os vícios, apesar disso ser contrário a muita «coisa» que deu a entender durante a campanha eleitoral que o pôs no poder.
Ela – Ele disse que ia «bater o pé» aos credores, a começar pelos alemães.
Eu – O que equivaleria a morder a mão que os alimenta ou, se quiser, a fazer negaças a quem lhes tem permitido ao longo de muitos anos viverem de um modo para que pouco contribuem.
Ela – Foram os ricos que pagaram essa crise, não é?
Eu – Não sei se são ricos. Sei que foi quem se coibiu de gastar, poupou um pouco ou muito conforme os rendimentos de cada um e emprestou essas poupanças à Grécia para que os gregos continuassem a não corrigir os vícios que lhes foram tolerados se não mesmo incentivados desde o tempo dos avósinhos.
Ela – Isso significa que se os ricos fecharem a torneira, os gregos vão ter que penar um bocado.
Eu – Tanto quanto nós, portugueses, temos penado para anularmos o défice público e para pagarmos a dívida externa tanto pública como privada.
Ela – Então, por que é que eles não fazem como nós?
Eu – Porque eles não são portugueses.
Ela – E isso que significa?
Eu – Nós temos uma certa honra em cumprir a palavra pagando as dívidas. Até porque os nossos credores podem muito bem não ser todos ricos.
Ela – Então, nós pagamos porque somos honrados e eles não pagam porque não o são?
Eu – Nós seguimos a política de honrar os nossos compromissos não ameaçando ninguém e fomos introduzindo medidas de redução dos défices de tal modo que os nossos credores começaram a acreditar em nós e os juros começaram a descer. Isso permitiu-nos pedir emprestado com juros cada vez mais baixos para amortizarmos empréstimos antigos, os da época dos juros altos. E se os défices anuais se forem reduzindo, então cada vez mais teremos que pedir cada vez menos até que passemos a ter saldos positivos e esses, sim, finalmente, servirão para reduzir o stock da dívida. Note que já vamos tendo saldos trimestrais primários positivos e esse é um primeiro passo no caminho do equilíbrio geral. À custa de quê e de quem? À custa de todos nós, os contribuintes, que fomos chamados a pagar mais e de todos nós, os beneficiários, que vemos as benesses a serem reduzidas.
Ela – Mas isso é a nível das contas públicas. E a dívida externa?
Eu – Sim, essa tanto é pública como privada mas acho que hoje ficamos por aqui pois tenho que ir ali ver se chove.
Ela – Ver se chove? Então não pode ver daqui?
Eu – Sim, posso mas é ali que estão as nabiças enquanto aqui só há cimento. Continuamos amanhã.
Ela – E os gregos?
Eu – Os gregos, não.
Ela – Não, o quê?
Eu – Até amanhã.
Ela – OK, inté!
Abril de 2015
Henrique Salles da Fonseca
