Curioso! Esta espécie de consulta que a RTP fez há pouco tempo aos portugueses para saber quem seriam os mais "+" da nossa história!
Deu Salazar em primeiro ou segundo lugar, Álvaro Cunhal a seguir, e até um senhor, cônsul de Portugal numa cidade de França, cheio de mérito inegável, que durante a guerra concedeu uma porção de vistos a judeus que queriam fugir do nazismo, e só.
O erro da RTP foi ter limitado a cem o número de concorrentes ao "grande prémio". Sei que o Eusébio também se classificou, e tinha direito a isso. Quando este grande futebolista estava no auge da sua carreira, talvez em 1967, eu fui à Alemanha e visitei diversas fábricas. Numa delas ao ser apresentado ao big Schiffspatron e lhe disse que ia de Angola, Portugiesich Western Afrika, o gesicht, o cara, mostrou os dentes e exibiu os seus conhecimentos de geopolítica dos pés: Oh! Já! Ja! (leia-se iá, iá) Portugal, Benfica, Eusébio! Sehr Schoen!
Era pouco para o que eu esperava do dono de uma empresa, e sorridente respondi-lhe no meu melhor alemão (que não falo): Ja! Ja! (outra vez iá, iá) Deutschland, Hamburg, Hitler!
Como era de prever por ali acabou a nossa animada conversa, mas nem por isso deixámos de negociar.
Sem querer mostrar sapiência, creio que se o Salazar, com uma ditadura, inevitável, que a anarquia que o antecedeu provocou, conduziu o país por quase 40 anos, livrou-o da decadência econômica, da corrupção, e ainda da 2ª Guerra Mundial, merece lugar de destaque, o Álvaro Cunhal, só porque foi um comunista ferrenho... desacredita, não a consulta da RTP, mas o nível cultural, ou de interesse da população. Por Portugal nada fez.
Está-se bem a ver como terá sido essa votação: o chefe dos comunas avisou que quem não votasse no velho líder era considerado fascista, e então a malta toda correu a manifestar o seu voto, talvez duas ou três vezes cada um. Para votar em Salazar não é necessário ser saudosista, mas realista, e ver o que ele fez pelo país. É verdade que prendeu, torturou, obrigou a que grande número das melhores cabeças pensantes do país tivessem que fugir, esqueceu-se que a passagem pela terra é limitada em tempo e não preparou o país para a democracia nem o diálogo para que as colónias seguissem o inevitável caminho.
De qualquer modo Salazar, Álvaro Cunhal e Aristides de Sousa Mendes aparecerem à frente do Infante D. Henrique... é como se diz por Lisboa "é de cabo de esquadra"!
Há outros nomes na votação que são uma delícia. O Eusébio lá ficou em 15° lugar, mas o Salgueiro Maia e Mário Soares antes de Santo António ?!?!?! E o Pinto da Costa antes de Nun'Álvares Pereira?!
Por fim em 21° lugar surge, humilde, como foi em vida, o nome duma das maiores figuras dos últimos tempos em Portugal, de quem, na próxima crónica vou falar um pouco, que a muito não me atrevo, o Mestre, o Professor Agostinho da Silva.
Para finalizar, quantos terão votado no grande rei D. Dinis, 24° (!) a quem se deve Portugal não ter perdido uma imensidão das suas terras com a plantação do Pinhal de Leiria, que serviu mais tarde para a construção de caravelas e naus para a expansão do mundo ocidental, que ordenou que os documentos oficiais passassem a ser redigidos na língua portuguesa em vez do latinório macarrônico ainda em uso no início do seu reinado, que criou a primeira Marinha de Guerra organizada, etc. Coitado do D. Dinis... em 24°!
E a pensar que mais votos do que este Grande Rei teve, por exemplo, um cara que é treinador de futebol!!!
E o insano Vasco Gonçalves à frente de Bartolomeu Dias, ou o Jorge Sampaio de Gil Vicente, Fernão Mendes Pinto e Damião de Góis?
Portugal! Ignorância, maldade ou achincalhamento?
Rio de Janeiro, 7 de Junho de 2007
Francisco Gomes de Amorim