A bem da Nação

OS LOBOS E OS FAUNOS – 11

 


 


 


Na mitologia moderna, os Faunos são os que tudo sabem, os Lobos são os que tudo comem, os Melros são os que tudo assobiam. Estas três categorias são miscíveis e intercambiáveis. Exaustos, os rebanhos são os que tudo pagam.


 


Eu, membro anónimo do meu rebanho, pago mas não cumprirei se me ordenarem que não bufe.


 


E porquê?


 


Porque a actual condição humana, com as suas forças e fraquezas, contradições, ameaças e esperanças, parte do princípio de que o crescimento material contínuo é possível, que esse movimento é causa de bem-estar, que consubstancia um direito universal indiscutível e que o grande motor do progresso é o consumo.


 


 



E como tudo isto é o resultado dos papéis dos modernos actores mitológicos, ouso afirmar que não é por muito repetir uma mentira que ela se transforma em verdade e que se actualmente muitos vivem na pura ilusão, protestam e exigem, torna-se imperioso e urgente desmistificar essas parangonas e fazer com que abandonemos a ilusória levitação a que fomos conduzidos assentando firmemente os pés no chão, única alternativa à genuflexão, fase imediatamente anterior à prostração.


 


Ignoro clubes mais ou menos secretos, não acredito na existência de mãos invisíveis e não creio que estejamos a ser alvo de outros conspiradores ocultos que nos manipulem como marionetas; mas acredito firmemente que uns quantos Faunos individualmente identificáveis decidiram manter-se no Poder prodigalizando benesses aos povos que governam ou governaram recorrendo descontroladamente aos dinheiros públicos cuja escassez seja suprida por recurso a capitais alheios. E, se perguntados, há-os que não hesitam na afirmação de que tais dívidas não devem ser pagas...


 


Consumir o que se não produz só é possível se se tiver crédito e, portanto, esse consumo não se pode arvorar em causa de progresso mas sim e apenas em consequência. Basear qualquer «modelo de desenvolvimento» nesse sofisma só pode conduzir à ruptura de abastecimentos se o crédito falhar.


 


Nem vale a pena aqui descrever realidades mais concretas pelas evidências com que tantos Melros televisivos nos encharcam diariamente.


 


O que vale, isso sim, é este alerta porque os pirómanos, tanto da classe dos Faunos como da dos Melros, andam por aí travestidos de bombeiros.


 


Mas é claro que se trata de sofismas e não de falácias...


 


Será?


 


 Henrique Salles da Fonseca

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